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De acordo com estudos, 50% dos professores brasileiros têm problemas provocados pelo mau uso da voz nas salas de aulas, como a rouquidão.
Salas com mais de 30 alunos e cargas horárias que exigem mais de quatro horas ininterruptas de aulas expositivas fazem com que os professores estejam entre os profissionais com maior risco de problemas vocais. Para prevenir esses distúrbios, em Timóteo, a 196 quilômetros de Belo Horizonte, no Vale do Aço, a Secretaria Municipal de Saúde e Assistência Social está oferecendo um curso de promoção de saúde vocal para professores, com o tema “Aprenda a cuidar e adequar o uso da voz na sala de aula”.
A responsável pela iniciativa é a fonoaudióloga Andréa Alves Maia, pesquisadora na área de voz da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). De acordo com ela, todos os estudos feitos com professores, no Brasil, indicam que cerca de 50% sofrem de problemas provocados pelo mau uso da voz, como cansaço vocal e rouquidão. “Por se tratar de uma única categoria profissional, esse índice é alto e nos põe em alerta. Problemas com o aparelho fonador são as principais causas de afastamento, aposentadoria e remanejamento de educadores para outras áreas de trabalho na escola. É elevado o número de professores que são retirados da sala de aula e passam a cumprir funções administrativas”, afirma.
A fonoaudióloga atribui o alto índice de ocorrência de problemas vocais em professores ao desconhecimento do correto uso da voz. “Como muitos outros profissionais, os educadores têm a voz como instrumento de trabalho. Entretanto, ao contrário do que ocorre em outras categorias, a grade curricular dos cursos para formação de docentes não inclui disciplinas que orientem o professor sobre as técnicas vocais corretas e pertinentes a seu trabalho”, diz.
Entre os erros mais comuns, ela cita a não-adequação da intensidade da voz ao local em que se fala. “Muitas vezes, o professor fala gritando, sem necessidade, e mesmo depois de deixar a sala de aula mantém esse padrão de voz. Isso gera cansaço excessivo da voz. Para piorar a situação, muitos só reconhecem que têm problemas vocais quando a rouquidão é persistente. Adiar o tratamento só agrava o quadro e, em alguns casos, apenas uma cirurgia resolve o problema.”
HIDRATAÇÃO Ainda de acordo com a fonoaudióloga, o conhecimento de técnicas vocais corretas é essencial para que os professores enfrentem a rotina de trabalho que, na maioria das vezes, tem carga diária de mais de 4 horas, em amplas salas de aula nas quais sua voz tem que sobressair à de mais de 35 alunos. “Aquecimento e desaquecimento do aparelho fonador, associados a exercícios que trabalhem a articulação e amplificação do som são essenciais para que eles consigam projetar a voz sem esforço. Paralelamente, cuidados gerais com saúde, alimentação equilibrada e hidratação também são importantes. O aconselhável é que procurem profissionais capacitados a orientá-los”, afirma.
A diretora da Escola Municipal Angelina Alves de Carvalho, Rita Maria do Carmo Duarte, participa do curso e, há 11 anos na profissão, sofre os efeitos do desgaste vocal em sala de aula. “Em 1994, tive problemas de nódulo bilateral, os famosos calos de voz. Fiz terapia duas vezes e por pouco não fui afastada do trabalho. O tratamento amenizou o problema, mas, em 1998, tive que me tratar novamente e continuei lecionando até 2000. Atualmente, como diretora, poupo a voz, mas mesmo assim o esforço é grande. Não recuperei toda a potência vocal”, diz.
Rita reconhece a falta de informação dos professores sobre o assunto. “Durante o curso, pensamos em levar ao Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE) novas propostas sobre cuidados com a saúde vocal. Os professores devem ter mais acesso a essas informações, para evitar problemas”, diz. A responsável pelo grupo coletivo de Saúde do Trabalhador do Sind-UTE/MG, Inês Gouveia, explica que a saúde vocal é um dos temas abordados pela entidade por ser, ao lado de doenças emocionais, uma das principais causas de afastamento e aposentadoria. “Problemas do aparelho fonador ainda não são reconhecidos como doença ocupacional e isso é um entrave à adoção de ações preventivas pelos governos. A Assembléia Legislativa estuda algumas propostas e estamos aguardando uma decisão”, diz.
"Muitos só reconhecem que têm problemas vocais quando a rouquidão é persistente. Adiar o tratamento só agrava o quadro" - Andréa Alves Maia, fonoaudióloga
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