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O crescimento da economia brasileira, ao contrário do que se esperava, não é a solução para o desemprego. O PIB cresceu nos últimos anos, mas a taxa de desemprego não diminuiu. Isso não significa que vagas não foram criadas, mas sim que faltam profissionais qualificados.
Esse é um problema que tem preocupado cada vez mais as empresas. Há setores da economia que estão crescendo muito rápido e não estão conseguindo suprir a demanda de profissionais. Para se ter uma idéia, quase um milhão de vagas estão sendo criadas em usinas de açúcar e de álcool, na indústria do petróleo, na construção e no mercado financeiro e as empresas desses setores têm tido enorme dificuldade para ocupá-las.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado pelo governo federal, prevê 500 mil vagas em quatro anos. O mercado está carente de profissionais qualificados e não há crescimento que se sustente sem capital humano. Os investimentos em novos projetos e em tecnologia são comprometidos quando não se tem pessoas para executá-los.
Para resolver esse problema é preciso, antes de tudo, uma mudança estrutural e cultural nas instituições de ensino. A indústria sinaliza frequentemente suas necessidades, mas as escolas tardam a se adequar a elas, quando o fazem. Um exemplo disso é o setor de turismo. Há alguns anos, a quantidade de profissionais formados na área não atendia à demanda. Os investimentos no ensino nessa área surgiram há pouco tempo e esse é um mercado que há anos está aquecido. O Ministério do Turismo registrou, apenas nos cinco primeiros meses do ano, a entrada de R$ 3,6 bilhões, trazidos por turistas estrangeiros, e a perspectiva é que a receita dobre até o fim do ano.
TRÊS MÃOS
A lição de casa para resolver o problema da falta de mão-de-obra deve ser feita a três mãos: universidades, empresas e profissionais. Às universidades cabe a adequação do ensino à realidade do mercado. Não adianta despejar milhares de profissionais todos os anos no mercado, se eles estiverem despreparados para enfrentar a realidade das empresas.
Os estudantes não precisam apenas de teoria, mas também de prática, de noções do que acontece no mundo real, fora do ambiente acadêmico. Nesse aspecto, é importante também que as universidades sejam mais claras sobre seus objetivos. Muitas instituições são ambientes que preparam o estudante para o mercado de trabalho, mas contratam um corpo docente com um perfil totalmente acadêmico.
A realidade é que a política acadêmica atual não acompanha o mercado, não forma profissionais competitivos. Os investimentos para que o ensino melhore e evolua são barrados pela necessidade de lucro imediato nas faculdades privadas e pela burocracia nas públicas. Quem se prejudica com isso é o aluno, que não adquire a habilidade de criar, evoluir e se desenvolver intelectualmente.
Às empresas cabe investir nesses profissionais desde a faculdade, como muitas têm feito com programas de estágios e trainees. Mas esse investimento pode ser ainda maior, com a concessão de bolsas de aperfeiçoamento para alunos que se destaquem, ajuda de custo para a melhora da infra-estrutura da universidade, enfim, contribuindo para o futuro de jovens que farão o futuro das empresas.
Essa parceria existe em outros países e só produz benefícios. A conceituada Universidade de Harvard, por exemplo, tem sua maior renda em doações de empresas. Se todas as companhias se conscientizassem da importância de investir nos profissionais desde a universidade, não precisariam gastar tanto em treinamento, universidades coorporativas e outros programas para remediar a escassez de mão-de-obra qualificada. O investimento que demandam esses programas poderia ser menor se o problema fosse solucionado desde a raiz: nas universidades.
Por fim, há o compromisso do futuro profissional de se manter atualizado, buscar além do que a universidade oferece, inovar e desenvolver habilidades que a faculdade, sozinha, talvez não consiga implantar em todos os alunos: competências comportamentais e gerenciais. Afinal, não basta ter vários diplomas e habilidades técnicas se não se souber lidar com o inédito, usar a criatividade, lidar com pressão ou ainda coordenar um grupo e tirar dele o melhor resultado.
Quanto mais o profissional se diferenciar e se destacar, melhores resultados terá em sua carreira. A disputa por talentos é intensa, principalmente com essa escassez de mão-de-obra especializada, por isso há uma tendência para salários altos e valorização de quem se especializa. Eis mais uma preocupação para as empresas: reter talentos. Mas essa é uma outra história
Hélio Rangel Terra - formado em Ciências Contábeis e Atuariais com pós-graduação em Harvard, é presidente da Assessoria em Recursos Humanos Manager; helioterra@manager-rh.com.br; www.assessoriarh.com
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