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Falta qualificação no mercado
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Data da Notícia: 06/11/2007


O crescimento da economia brasileira, ao contrário do que se esperava, não
é a solução para o desemprego. O PIB cresceu nos últimos anos, mas a taxa
de desemprego não diminuiu. Isso não significa que vagas não foram criadas,
mas sim que faltam profissionais qualificados.

 Esse é um problema que tem preocupado cada vez mais as empresas. Há
setores da economia que estão crescendo muito rápido e não estão
conseguindo suprir a demanda de profissionais. Para se ter uma idéia, quase
um milhão de vagas estão sendo criadas em usinas de açúcar e de álcool, na
indústria do petróleo, na construção e no mercado financeiro e as empresas
desses setores têm tido enorme dificuldade para ocupá-las.

 O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), criado pelo governo
federal, prevê 500 mil vagas em quatro anos. O mercado está carente de
profissionais qualificados e não há crescimento que se sustente sem capital
humano. Os investimentos em novos projetos e em tecnologia são
comprometidos quando não se tem pessoas para executá-los.

 Para resolver esse problema é preciso, antes de tudo, uma mudança
estrutural e cultural nas instituições de ensino. A indústria sinaliza
frequentemente suas necessidades, mas as escolas tardam a se adequar a
elas, quando o fazem. Um exemplo disso é o setor de turismo. Há alguns
anos, a quantidade de profissionais formados na área não atendia à demanda.
Os investimentos no ensino nessa área surgiram há pouco tempo e esse é um
mercado que há anos está aquecido. O Ministério do Turismo registrou,
apenas nos cinco primeiros meses do ano, a entrada de R$ 3,6 bilhões,
trazidos por turistas estrangeiros, e a perspectiva é que a receita dobre
até o fim do ano.

 TRÊS MÃOS

 A lição de casa para resolver o problema da falta de mão-de-obra deve ser
feita a três mãos: universidades, empresas e profissionais. Às
universidades cabe a adequação do ensino à realidade do mercado. Não
adianta despejar milhares de profissionais todos os anos no mercado, se
eles estiverem despreparados para enfrentar a realidade das empresas. 

 Os estudantes não precisam apenas de teoria, mas também de prática, de
noções do que acontece no mundo real, fora do ambiente acadêmico. Nesse
aspecto, é importante também que as universidades sejam mais claras sobre
seus objetivos. Muitas instituições são ambientes que preparam o estudante
para o mercado de trabalho, mas contratam um corpo docente com um perfil
totalmente acadêmico. 

 A realidade é que a política acadêmica atual não acompanha o mercado, não
forma profissionais competitivos. Os investimentos para que o ensino
melhore e evolua são barrados pela necessidade de lucro imediato nas
faculdades privadas e pela burocracia nas públicas. Quem se prejudica com
isso é o aluno, que não adquire a habilidade de criar, evoluir e se
desenvolver intelectualmente.

 Às empresas cabe investir nesses profissionais desde a faculdade, como
muitas têm feito com programas de estágios e trainees. Mas esse
investimento pode ser ainda maior, com a concessão de bolsas de
aperfeiçoamento para alunos que se destaquem, ajuda de custo para a melhora
da infra-estrutura da universidade, enfim, contribuindo para o futuro de
jovens que farão o futuro das empresas.

 Essa parceria existe em outros países e só produz benefícios. A
conceituada Universidade de Harvard, por exemplo, tem sua maior renda em
doações de empresas. Se todas as companhias se conscientizassem da
importância de investir nos profissionais desde a universidade, não
precisariam gastar tanto em treinamento, universidades coorporativas e
outros programas para remediar a escassez de mão-de-obra qualificada. O
investimento que demandam esses programas poderia ser menor se o problema
fosse solucionado desde a raiz: nas universidades.

 Por fim, há o compromisso do futuro profissional de se manter atualizado,
buscar além do que a universidade oferece, inovar e desenvolver habilidades
que a faculdade, sozinha, talvez não consiga implantar em todos os alunos:
competências comportamentais e gerenciais. Afinal, não basta ter vários
diplomas e habilidades técnicas se não se souber lidar com o inédito, usar
a criatividade, lidar com pressão ou ainda coordenar um grupo e tirar dele
o melhor resultado.

 Quanto mais o profissional se diferenciar e se destacar, melhores
resultados terá em sua carreira. A disputa por talentos é intensa,
principalmente com essa escassez de mão-de-obra especializada, por isso há
uma tendência para salários altos e valorização de quem se especializa. Eis
mais uma preocupação para as empresas: reter talentos. Mas essa é uma outra
história

 Hélio Rangel Terra - formado em Ciências Contábeis e Atuariais com
pós-graduação em Harvard, é presidente da Assessoria em Recursos Humanos
Manager; helioterra@manager-rh.com.br; www.assessoriarh.com 		

Fonte: O Estado de São Paulo



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