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Um amigo jornalista, setenta e tantos anos bem vividos, ao ser convidado para escrever um livro saiu-se com esta: “Gostaria muito, mas estou naquela fase de fazer contas. Quantos anos lúcidos ainda terei pela frente? Com muita sorte e a ajuda de Deus, uns 10. Com tudo o que faço e com os projetos que ainda pretendo realizar, trabalhando o número de horas que costumo trabalhar, já tenho o que fazer para o resto da vida. Não me dê mais tarefas, portanto”.
Gostei tanto da resposta dele que, embora bem mais novo, uso os mesmos argumentos para recusar tarefas que me são constantemente solicitadas como 1) ajudar alunos em seu trabalho de final de curso (“não, não quero ler nada — eles dizem — prefiro fazer uma entrevista com você... 2) prefaciar livros de qualidade duvidosa; 3) fazer parte de bancas de dissertação de mestrado e teses de doutorado que eu não aprovaria como trabalhos de final de semestre; 4) opinar sobre originais que sei, de antemão, serem muito ruins; 5) participar de debates com gente sectária, etc., etc.
Este ano, contudo, aceitei falar em duas formaturas diferentes. A primeira, dos alunos de um colégio estadual na cidade de Americana, interior de São Paulo. O professor de história dos garotos me procurou por e-mail dizendo que os estudantes tinham lido entrevista que eu havia concedido a uma agência dirigida pelo jornalista Luciano Martins e que foi publicada nos jornais das maiores cidades do interior do estado, como Campinas, Sorocaba, Bauru, Araraquara e Americana. Alguém levou o recorte à classe, os alunos todos leram, foram atrás de um livro meu, sobre cidadania, que também leram, e pediram ao professor que me convidasse para falar na formatura pois, segundo eles, o que eu escrevia “tinha tudo a ver”. Senti-me honrado, não tinha como recusar.
Assim, na próxima sexta-feira, dia 15 de dezembro, estarei na formatura do Heitor Penteado de Americana, torcendo para que a chuva esteja leve. E para que minhas palavras faladas também consigam a proeza de dialogar com a garotada.
Se essa experiência é rara para alguém como eu que, ao sair da universidade, já se tornou professor universitário, sem nunca ter transitado pelo ensino médio, a experiência que vivenciei na última quarta-feira foi realmente inusitada. Fui convidado para falar na formatura do meu neto, Erik. Ele, com 6 anos, já alfabetizado e leitor compulsivo (além de ótimo jogador de futebol e são-paulino feliz, como o avô), estuda numa ótima escola da Zona Sul de São Paulo. Animados com os resultados obtidos com os alunos, pais e diretores decidiram criar os oito ou nove anos de ensino fundamental, o antigo primário. Transcrevo, sem retoques, minha mensagem aos responsáveis pela escola. Como diriam os jovens, acho que tem tudo a ver:
“O que desejamos de uma escola? Que socialize nossos filhos, pois socializar significa adequá-los às práticas e valores vigentes numa sociedade, sem com isso podar sua criatividade, inibir seu diferencial com relação a todos os outros alunos.
Que ressalte e estimule seus talentos, sem com isso transformá-los em competidores sanguinários, predadores dispostos a matar ou morrer em nome da vitória. O instrumental que eles devem dominar — o patrimônio cultural da humanidade — não deve ser utilizado para esmagar os mais fracos, mas para promover a harmonia social.
Que nossas crianças consigam entender que a violência, mesmo sendo inerente ao ser humano, se manifesta quando condições favoráveis lhe são apresentadas, como a desigualdade social, a corrupção, o desprezo pelos menos favorecidos, o desamor ao trabalho e a vontade de possuir bens de consumo a qualquer preço.
A distinção é muito antiga, mas vale também para estas crianças: ter é bom, mas ser é melhor. Ter tem a ver com possuir, ser tem a ver com dialogar. Ter se consegue adquirindo, ser se alcança sendo.
Minha preocupação é que nossas crianças possam ser preparadas para viver, mas que também sejam preparadas para deixar viver. Minha alegria seria vê-los bem equipados para o mundo competitivo, mas também bem socializados para se tornarem cidadãos úteis, distantes de preconceitos sociais que tornam as pessoas mesquinhas, as crianças insuportáveis e os pais figuras indesejáveis.
Minha aposta, nossa aposta é que esta escola possa contribuir grandemente para a formação dos cidadãos do futuro.”
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