|
A escola que queremos
"" Data da Notícia: 12/12/2006 Um amigo jornalista, setenta e tantos anos bem vividos, ao ser convidado
para escrever um livro saiu-se com esta: “Gostaria muito, mas estou naquela
fase de fazer contas. Quantos anos lúcidos ainda terei pela frente? Com
muita sorte e a ajuda de Deus, uns 10. Com tudo o que faço e com os
projetos que ainda pretendo realizar, trabalhando o número de horas que
costumo trabalhar, já tenho o que fazer para o resto da vida. Não me dê
mais tarefas, portanto”.
Gostei tanto da resposta dele que, embora bem mais novo, uso os mesmos
argumentos para recusar tarefas que me são constantemente solicitadas como
1) ajudar alunos em seu trabalho de final de curso (“não, não quero ler
nada — eles dizem — prefiro fazer uma entrevista com você... 2) prefaciar
livros de qualidade duvidosa; 3) fazer parte de bancas de dissertação de
mestrado e teses de doutorado que eu não aprovaria como trabalhos de final
de semestre; 4) opinar sobre originais que sei, de antemão, serem muito
ruins; 5) participar de debates com gente sectária, etc., etc.
Este ano, contudo, aceitei falar em duas formaturas diferentes. A primeira,
dos alunos de um colégio estadual na cidade de Americana, interior de São
Paulo. O professor de história dos garotos me procurou por e-mail dizendo
que os estudantes tinham lido entrevista que eu havia concedido a uma
agência dirigida pelo jornalista Luciano Martins e que foi publicada nos
jornais das maiores cidades do interior do estado, como Campinas, Sorocaba,
Bauru, Araraquara e Americana. Alguém levou o recorte à classe, os alunos
todos leram, foram atrás de um livro meu, sobre cidadania, que também
leram, e pediram ao professor que me convidasse para falar na formatura
pois, segundo eles, o que eu escrevia “tinha tudo a ver”. Senti-me honrado,
não tinha como recusar.
Assim, na próxima sexta-feira, dia 15 de dezembro, estarei na formatura do
Heitor Penteado de Americana, torcendo para que a chuva esteja leve. E para
que minhas palavras faladas também consigam a proeza de dialogar com a
garotada.
Se essa experiência é rara para alguém como eu que, ao sair da
universidade, já se tornou professor universitário, sem nunca ter
transitado pelo ensino médio, a experiência que vivenciei na última
quarta-feira foi realmente inusitada. Fui convidado para falar na formatura
do meu neto, Erik. Ele, com 6 anos, já alfabetizado e leitor compulsivo
(além de ótimo jogador de futebol e são-paulino feliz, como o avô), estuda
numa ótima escola da Zona Sul de São Paulo. Animados com os resultados
obtidos com os alunos, pais e diretores decidiram criar os oito ou nove
anos de ensino fundamental, o antigo primário. Transcrevo, sem retoques,
minha mensagem aos responsáveis pela escola. Como diriam os jovens, acho
que tem tudo a ver:
“O que desejamos de uma escola? Que socialize nossos filhos, pois
socializar significa adequá-los às práticas e valores vigentes numa
sociedade, sem com isso podar sua criatividade, inibir seu diferencial com
relação a todos os outros alunos.
Que ressalte e estimule seus talentos, sem com isso transformá-los em
competidores sanguinários, predadores dispostos a matar ou morrer em nome
da vitória. O instrumental que eles devem dominar — o patrimônio cultural
da humanidade — não deve ser utilizado para esmagar os mais fracos, mas
para promover a harmonia social.
Que nossas crianças consigam entender que a violência, mesmo sendo inerente
ao ser humano, se manifesta quando condições favoráveis lhe são
apresentadas, como a desigualdade social, a corrupção, o desprezo pelos
menos favorecidos, o desamor ao trabalho e a vontade de possuir bens de
consumo a qualquer preço.
A distinção é muito antiga, mas vale também para estas crianças: ter é bom,
mas ser é melhor. Ter tem a ver com possuir, ser tem a ver com dialogar.
Ter se consegue adquirindo, ser se alcança sendo.
Minha preocupação é que nossas crianças possam ser preparadas para viver,
mas que também sejam preparadas para deixar viver. Minha alegria seria
vê-los bem equipados para o mundo competitivo, mas também bem socializados
para se tornarem cidadãos úteis, distantes de preconceitos sociais que
tornam as pessoas mesquinhas, as crianças insuportáveis e os pais figuras
indesejáveis.
Minha aposta, nossa aposta é que esta escola possa contribuir grandemente
para a formação dos cidadãos do futuro.”
|
|
UNILINS - Centro Universitário de Lins © Copyright 2010 • Av. Nicolau Zarvos, 1925 - Jardim Aeroporto - CEP 16401 371 - Lins-SP Telefone (14) 3533-3200 • Cursos de Graduação: 0800 771 3200 • Outros Cursos: 0800 771 3090 |