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Entenda o que pensam os jovens que praticam bullying e aterrorizam os colegas mais fracos.
TARSO ARAUJO
DA REPORTAGEM LOCAL
Mariana, 21, tinha 15 anos quando maltratou sistematicamente, e sem dó, uma colega de escola, nova em sua turma.
Ela se tornou a protagonista de uma perseguição preconceituosa em relação à origem da menina, recém-chegada da região Norte. "A gente fazia várias piadinhas sobre o Estado dela, falávamos para ela voltar para lá, fazíamos desenhos dela na lousa com uma faixa de Miss Rondônia", diz.
A vítima ia para o banheiro chorar e pedia aos pais, por telefone, para voltar para casa.
Toda essa perseguição porque, segundo Mariana, a menina era "puxa-saco" de uma professora que todos odiavam.
"Para mim, [persegui-la] era um mecanismo de defesa."
O motivo apontado pela estudante é apenas um entre os vários que levam jovens a praticar bullying, segundo especialistas e os próprios agressores.
Outras causas comuns são a inveja e o medo de perder popularidade, que fizeram Nathalia, 14, viver seu momento de vilã.
"Eu me achava a última bolacha do pacote. Aí entrou uma menina no colégio, alta, com corpo bonito e olhos claros. Os meninos olhavam para ela. Eu me senti ameaçada."
Primeiro, Nathalia criou um perfil de Orkut para espalhar boatos sobre a vida sexual da menina, dizendo que ela era "uma biscate". Logo depois começaram as agressões verbais, na própria escola.
"Ela começou a mostrar tristeza, abaixava a cabeça quando passava. Aí é que a gente ria mesmo", diz Nathalia, que considera a adesão dos colegas rindo outra causa importante de bullying.
"Se as pessoas não rissem, a gente não faria, porque fazemos para aparecer."
Cena de cinema
Por exemplo: Marcos, 15, e alguns amigos partiram para o bullying violento depois que a turma se divertiu por meses com eles zoando um colega, apelidado (por eles) de "Caquinha", em plena sala de aula.
"Nem todo o mundo fazia [o bullying], mas todo o mundo participava rindo", diz. O filme "Tropa de Elite", diz Marcos, inspirou o grupo a ser mais agressivo.
O colega agredido parou de sair da sala na hora do recreio, depois de ser alvejado com pedaços de melancia no pátio.
Marcos e os amigos iam atrás do menino sozinho na sala, cobriam sua cabeça com um saco de supermercado e lhe davam tapas no rosto e na cabeça.
"Uma vez ele chorou muito e repensei um pouquinho o que fazia: passei a dar só na cabeça."
Hoje, dois anos depois, ele considera esse comportamento "imbecil e vergonhoso". E diz que não pratica mais o bullying. "Quando a gente envelhece, perde um pouco a graça", diz.
Nathalia trilhou o mesmo caminho após a escola dar uma aula sobre bullying.
"Achava graça em fazer mal aos outros, me rebaixava tentando mostrar superioridade. Eu era ridícula. Só pensava na minha alegria, nunca na dos outros."
O QUE É BULLYING?
O que diferencia uma "zoada" do bullying é a intenção daquele que provoca um colega de magoá-lo e a repetição desse comportamento ao longo do tempo. No bullying sempre existe uma clara diferença entre o mais forte e o mais fraco, que tem dificuldade de quebrar essa relação de poder desigual
COMO AGE E QUEM PRATICA BULLYING
Quando praticam bullying:
45% agem sozinhos
26% agem com um amigo
29% agem com mais de um amigo
Admitem praticar bullying:
12,5% dos meninos
7,6% das meninas
Fonte: pesquisa "Bullying no Ambiente Escolar" (Ceats, 2010), com 5.168 alunos de 5ª a 8ª série
ALGUMAS CAUSAS COMUNS DE BULLYING
INVEJA
Comum entre meninas. Garotas mais bonitas e/ou populares entre os homens podem ser vítima das outras meninas
MEDO
Todo o mundo tem medo de ser piada. E algumas pessoas consideram que "atacar é a melhor defesa"
EGOCENTRISMO
Muitos atacam e provocam para ser o centro das atenções. E são incapazes de perceber a dor que causam nos outros
CONFIANÇA NA PRÓPRIA SUPERIORIDADE
As pessoas às vezes aprendem que são melhores do que outras e que não devem se associar às "perdedoras"
PROTEGER A PRÓPRIA IMAGEM
Algumas pessoas tentam controlar a sua autoimagem evitando que pessoas diferentes (ou vistas como tal) façam parte de seu círculo de amizades VIOLÊNCIA NA MÍDIA
Algumas pesquisas mostram que a violência da televisão torna os jovens mais agressivos e menos solidários
AMBIENTE FAMILIAR RUIM
A falta de afeto em casa costuma aumentar a possibilidade de um jovem praticar bullying. Castigos físicos também
MENTALIDADE DE GRUPO
Para os grupos de pessoas, o "outro" ajuda a criar identidade. Aquele que é diferente dá união ao grupo
Fonte: "Proteja seu Filho do Bullying", de Allan Beane (editora Best Seller)
Por vingança, ex-vítimas tornam-se agressoras
DA REPORTAGEM LOCAL
"Eu era um pouco gordinho e pegavam no meu pé. É horrível, a gente se sente um lixo", diz Jonathan,18, de Pindamonhangaba (SP).
Mas a experiência não o fez mais solidário. Ao contrário. "Emagreci e fiquei mais confiante. Aí comecei a pegar no pé dos outros."
A psicóloga da USP Maria Isabel Leme, especialista em violência escolar, explica que há dois tipos de vítima: a que se encolhe e a que reage. "Algumas são mais agressivas e impulsivas, entendem tudo como provocação", diz.
Bruno, 16, estudante de Catalão (GO), foi vingativo.
"Eu era muito excluído, não tinha amigos", diz. A coisa mudou quando ele tornou-se um dos melhores jogadores de handebol da escola e, de novo, quando outra aluna mostrou jogar tão bem quanto ele.
"Eu era bastante popular e ela era uma ameaça a isso. Acho que o fato de eu ter passado por isso [o bullying] me fez descontar nela."
O troco veio na forma de boatos e de humilhações públicas. "Inventei que ela era lésbica e que tinha feito um aborto. E joguei macarrão do lanche no cabelo dela", diz. (TA)
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