O celular que acessa a internet, grava vídeos, toca
música, armazena milhares de livros, conta quantas calorias
você ingeriu no almoço e não sai do seu lado nem na
hora de dormir está fazendo suas faculdades mentais murcharem?
Ainda é cedo para dizer com certeza, mas há
indicações preocupantes de que um anúncio na linha "O
Ministério da Saúde adverte: uso excessivo de smartphone
emburrece" não é ficção científica.
A telefonia móvel turbinada seria, na verdade, apenas o
símbolo de um problema maior –no caso, o excesso de
estimulação e exposição simultânea a
múltiplas mídias que tem se tornado cada vez mais comum no
último par de décadas.
Diversos estudos indicam que há uma correlação
entre esses estímulos incessantes e coisas como reduzida capacidade
de memória, dificuldade de filtrar informações
irrelevantes, problemas de impulsividade e falta de empatia.
Ainda não está claro se a avalanche de mídias
eletrônicas está causando esses problemas ou apenas os
potencializa, mas os dados disponíveis até agora sugerem que
mais cautela no uso desses dispositivos não faria mal, em especial
por parte de pessoas cujo sistema nervoso ainda está em franco
desenvolvimento (ou seja, crianças e adolescentes).
MMs
Os neurocientistas e psicólogos que estudam o impacto das
tecnologias sobre a mente humana têm avaliado com especial
atenção os efeitos do chamado MM (sigla inglesa de "media
multitasking" ou "uso multitarefa de mídias").
O comportamento MM é, obviamente, muito facilitado pela posse de
um smartphone –ouvir música e usar um aplicativo de mensagens
ao mesmo tempo, por exemplo (talvez com a TV ligada ao fundo).
O grupo coordenado pelo psicólogo Anthony Wagner, da Universidade
Stanford (EUA), foi um dos primeiros a analisar de forma quantitativa o
desempenho cognitivo de jovens classificados como HMMs (intensos
usuários multitarefa de mídias) e LMMs (usuários
"leves").
Em um dos estudos da equipe, que saiu na revista "PNAS", havia duas
tarefas simples (veja infográfico). Em uma delas, os jovens tinham
de dizer se a posição de alguns retângulos vermelhos na
tela do computador tinha mudado –e, ao mesmo tempo, não
prestar atenção nos retângulos azuis que também
apareciam na tela.
Os 'usuários intensos', que poderíamos comparar a viciados
em smartphone, saíram-se significativamente pior. No caso das letras
e números, o curioso é que eles tinham mais dificuldade de
alternar entre os dois tipos de estímulo, embora supostamente
estivessem mais habituados a lidar com dois tipos de
informação ao mesmo tempo.
Em outra pesquisa de Wagner, desta vez no periódico "Psychonomic
Bulletin & Review", os pobres 'usuários intensos' também
mostraram ter desempenho pior na chamada memória de trabalho (a que
as pessoas usam para guardar por alguns instantes um número de
telefone antes de discá-lo, por exemplo) – e, o que é
mais preocupante, esse efeito parece se refletir na memória de longo
prazo.
No que diz respeito à memória, resultados parecidos foram
obtidos por Betsy Sparrow e colegas da Universidade Columbia (EUA) em
artigo na revista "Science".
Os pesquisadores chegaram a usar o termo "efeito Google" porque as
pessoas tinham mais dificuldade para recordar informações
quando sabiam que elas estavam salvas no computador no qual participavam do
estudo.
Os efeitos citados acima já poderiam ser considerados ruins se
tivessem apenas relação com o aprendizado, mas outros estudos
mostram ainda que o MM mexe com coisas como o controle da impulsividade,
das frustrações e das relações sociais.
Adolescentes do Canadá viciados em trocar mensagens, por exemplo,
são mais propensos a mostrar preconceito em relação a
pessoas que não fazem parte de seu grupo social ou étnico e a
valorizarem dinheiro e aparência física.
DILEMA DE TOSTINES
Segundo Wagner, é preciso reconhecer que há um certo
"dilema de Tostines" nesses dados. Pode ser que as pessoas que naturalmente
já são mais dispersas e com baixo controle de impulsividade
sejam atraídas naturalmente para o uso excessivo de mídias
eletrônicas, e não que cérebros serenos estejam sendo
destruídos pelos aparelhos.
"Acho o tópico fascinante, porque estamos entrando numa outra
fase da evolução", analisa o neurocientista Sidarta Ribeiro,
do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande
do Norte). "Já somos ciborgues, estamos terceirizando
memórias de trabalho, cálculos, gramática etc."
Um impacto possível dessa explosão a longo prazo seria a
diminuição da criatividade humana, uma vez que o ócio
cerebral –o descanso sem estímulos significativos –
ajudaria a criar conexões entre temas díspares e a ter ideias
inovadoras. Ribeiro é menos pessimista.
"Essa questão é uma faca de dois gumes. O computador e a
internet aumentam imensamente o poder de criar, embora possam matar o
devaneio do ócio. A variância está aumentando
–vejo um futuro com mais gênios e mais idiotas. Depende do modo
de usar a tecnologia."
VOCÊ TROCA SEU CÉREBRO POR UM
CELULAR?
Possíveis efeitos cognitivos da era digital
1. EFEITO GOOGLE
Se você sabe que vai conseguir achar uma informação
facilmente fazendo uma busca na internet ou no seu computador, será
que terá mais dificuldade para decorá-la sozinho?
Sim, de acordo com um estudo da Universidade Columbia. Nele,
voluntários liam uma lista de curiosidades (coisas como "o olho de
um avestruz é maior que o seu cérebro"). Depois, para ajudar
na memorização, podiam digitar essa frase.
Para metade dos voluntários, os cientistas disseram que a frase
seria apagada. Para a outra metade, informaram que ela seria salva no
computador.
Depois, todos tinham de listar o maior número possível de
curiosidades.
Os que achavam que o computador ia salvar as
informações tiveram desempenho bem pior
2. TUDO JUNTO
Usar diversas mídias ao mesmo tempo atrapalha o desempenho.
Estudo de Stanford, dividiu voluntários em dois grupos: os que
usavam muitas mídias ao mesmo tempo (assistir televisão
checando e-mails no celular e fazendo lição de casa, por
exemplo) e os que não adotam essa prática.
Num teste para averiguar a capacidade de filtrar estímulos
inúteis, eles tinham de dizer se a orientação de
retângulos vermelhos tinha mudado e, ao mesmo tempo, não se
distrair com retângulos azuis.
Quem não usava várias mídias ao mesmo tempo
se saiu bem melhor
3. Em um teste de "eficiência", as pessoas tinham de dizer se uma
letra (A ou C, digamos) era consoante ou vogal e, depois, se um
número (2 ou 5, por exemplo) era par ou ímpar.
Os que usavam várias mídias simultaneamente tinham
mais dificuldade na troca de tarefas
4. Outro estudo, do University College de Londres, mostrou que o uso
simultâneo de mídias está associado a uma
diminuição da massa cinzenta numa área do
cérebro ligada à capacidade de detecção de
erros e conflitos lógicos.
Fonte: www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/03/1868247-uso-de-smartphone-pode-estar-nos-emburrecendo-sugerem-estudos.shtml