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Reinício das aulas, reinício das escolas
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Artigo publicado no Jornal Debate, no dia 06/03/2016.

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Data da Notícia: 08/03/2016


Não é um eterno retorno – mas poderia parecer que assim o seria. Os calendários são uma tentativa humana de organizar o tempo em uma estrutura similar, como se os dias, quanto a suas identificações, pudessem ser tratados como iguais: 1º de janeiro, 1º de abril, 1º de maio, 7 de setembro... Segunda, terça, quarta... Talvez não saibamos – nós, humanos – viver de outra forma.

Terrível engano. Os dias não se repetem, embora possamos tentar acreditar nisso: “O ano está passando rápido! Já estamos em março!” Ilusão. Mesmo que o escritor Saramago (em seu livro A Caverna) apresente outra visão, quando afirma: “Os dias são todos iguais, as horas é que não, quando os dias chegam ao fim têm sempre as suas vinte e quatro horas completas, mesmo quando elas não tiveram nada dentro.” Talvez seja isso: os dias não se repetem porque são o mesmo transcorrer de tempo, que insistimos em repartir por horas, minutos, segundos...

De todo modo, algumas atividades que se inserem no tempo têm seus inícios e fins, seus reinícios. Como as aulas. As aulas constituem, inclusive, um ano especial – o ano letivo. A sucessão de tempos das aulas, seus inícios e reinícios, traz uma reflexão. O que reinicia é, na verdade, uma continuação (à exceção do primeiro dia de aula/atividade da pré-escola ou da educação infantil). Continuação de conteúdos, continuação de séries ou anos de um curso, continuação de estruturas, dinâmicas e metodologias de ensino.

O célebre questionamento a respeito da experiência escolar, sobretudo daqueles que já entraram na casa dos “-enta”, destaca um aspecto continuísta do tempo escolar: desde os primórdios das escolas, no Ocidente, em geral, e na vida daqueles que já passaram por alguma escola, especificamente, a organização do espaço da sala de aula é a mesma!

OK, existem propostas e projetos que intentam modificar a disposição das mesas, cadeiras e/ou carteiras em uma sala de aula; ou a própria arquitetura, como documenta e propõe a professora Doris Kowaltowski, da Unicamp (arquiteta, mestra e doutora em arquitetura). Todavia, a dinâmica persiste: de um lado, aquele que sabe (ou deveria saber) repassando seus conhecimentos (ou conhecimentos de outros, que o repassador aprendeu); de outro, dezenas que apenas devem assimilar o que se busca transmitir.

Ora, o biólogo Joe Ruhl afirma que a educação (como muitas outras coisas) alcança seus melhores fins a partir de “6Cs”: Choice, Collaboration, Communication, Critical Thinking, Creativity... Caring: escolhas que os estudantes devem e querem fazer, colaboração entre os estudantes, comunicação que potencializa a colaboração, pensamento crítico para identificar os elementos constituintes de uma situação-problema, criatividade para resolver as situações-problema – já que um mesmo problema pode ter mais de uma solução – e... afeto nas relações interpessoais. Essas condições não descartam a presença ou uso da tecnologia, por certo. Metodologicamente, Ruhl apoia-se nas pesquisas do psiquiatra William Glasser, o qual delineou a Teoria da Escolha e a aplicou à educação. O próprio Ruhl, referindo-se à teoria e Glasser, destaca que o percentual da aprendizagem resume-se a meros 10% daquilo que alguém lê; porém, pode chegar a cerca de 70% daquilo que alguém discute com outros e a 80% daquilo que alguém vivencia. Mais significativo ainda: a pessoa chega a aprender cerca de 95% daquilo que ela ensina para os outros.

Esses percentuais ajudam a colocar as metodologias e processos educacionais ainda vigentes sob uma perspectiva crítica. Afinal, por que não estimular a colaboração entre os estudantes, inclusive aproveitando-se dos múltiplos recursos tecnológicos – que já estão presentes no ambiente escolar (acadêmico), mesmo a contragosto de professores, coordenadores e demais profissionais da educação? Por que não estimular práticas de tutoria entre os estudantes, em todos os níveis de ensino?

Atualmente, muito se fala em mentoria: encontrar um mentor, descobrir um mentor, pagar por orientações e acompanhamento de um mentor... Talvez seja o momento de a escola encampar a proposta: descobrir que o professor (a professora) não é um chefe, mas um líder. Além: o professor (professora) é um educador; e que pode – e deve – perceber-se e assumir-se como um mentor! Não, simplesmente, ensinar respostas e soluções prontas para um problema; mas ensinar a refletir crítica e criativamente – a partir da compreensão adequada de conceitos e circunstâncias – sobre problemas a fim de encontrar soluções inovadoras.

Não podemos evitar as mudanças no papel do professor e da escola, temos que entender qual o melhor modelo de educação para essa nova geração, que busque a desenvolver nos alunos competências, habilidades e atitudes, como aprender a aprender (o conhecimento evolui muito rapidamente, não podemos depender de velho modelo para se atualizar), da adaptabilidade aos novos cenários, de sintetizar informação e saber o que fazer com elas. Para tanto precisamos fazer com que a Universidade, as Escolas e todos envolvidos nesse processo saiam daz suas Torres de Marfim e, pare de achar que são donos do conhecimento, ledo engano, não são mais, hoje os jovens estão desenvolvendo conhecimentos em muitos lugares e principalmente cooperanado e colaborando uns com os outros.

O “reinício” das aulas deveria constituir-se em um momento mais criativo do que uma simples redação cujo título seria, por exemplo, “Minhas férias”. Basta vermos o que está acontecendo os alunos estão se afastando desses modelos para irem para modelos mais inovadores. Basta, temos que compreender que a Sociedade mudou, que o mundo mudou e essa nova geração está mudando muito mais rapidamente o mundo do que fizeram as outras gerações. 

 

Artigo publicado no Jornal Debate, no dia 06/03/2016.

 



Fonte: André Fassa e Leonides da Silva Justiniano – Professores Universitários e Consultores da Empreendeducação



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