Repolhos iguais
"Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista da onda, por não ser ignorado, por cumprir horários, prescrições, comandos, realmente estão nos tornando eternos angustiados e permanentes aflitos. "
Data da Notícia: 08/05/2014
Sempre me impressiona o impulso geral de igualar a todos: ser diferente,
sobretudo ser original, é defeito. Parece perigoso. E, se formos
diferentes, quem sabe aqui e ali uma medicaçãozinha ajuda.
Alguém é mais triste? Remédio nele. Deprimido?
Remédio nele (ainda que tenha acabado de perder uma pessoa amada, um
emprego, a saúde). Mais gordinho? Dieta nele. Mais alto?
Remédio na adolescência para parar de crescer. Mais relaxado
na escola? Esse é normal. Mais estudioso, estudioso demais? A gente
se preocupa, vai virar nerd (se for menina, vai demorar a conseguir
marido).
Não podemos, mas queremos tornar tudo homogêneo: meninas
usam o mesmo cabelo, a mesma roupa, os mesmos trejeitos; meninos, aquele
boné virado. Igualdade antes de tudo, quando a graça, o
poder, a força estão na diversidade. Narizes iguais, bocas
iguais, sobrancelhas iguais, posturas iguais. Não se pode mais
reprovar crianças e jovens na escola, pois são todos iguais.
Serão? É feio, ou vergonhoso, ter mais talento, ser mais
sonhador, ter mais sorte, sucesso, trabalhar mais e melhor.
Vamos igualar tudo, como lavouras de repolhos, se possível...
iguais. E assim, com tudo o que pode ser controlado com remédios,
nos tornamos uma geração medicada. Não todos - deixo
sempre aberto o espaço da exceção para ser realista, e
respeitando o fato de que para muitos os remédios são uma
necessidade -, mas uma parcela crescente da população
é habitualmente medicada. Remédios para pressão alta,
para dormir, para acordar, para equilibrar as emoções, para
emagrecer, para ter músculos, para ter um desempenho sexual
fantástico, para ter a ilusão de estar com 30 anos quando se
tem 70. Faz alguns anos reina entre nós o diagnóstico de
déficit de atenção para um número assustador de
crianças. Não sou psiquiatra, mas a esta altura de minha vida
criei e acompanhei e vi muitas crianças mais agitadas, ou
distraídas, mas em por isso precisadas de medicação a
torto e a direito. Fala-se, não sei em que lugar deste mundo louco,
em botar Ritalina na merenda das escolas públicas. Tal fúria
de igualitarismo esconde uma ideologia tola e falsa.
Se déssemos a 100 pessoas a mesma quantidade de dinheiro e as
mesmas oportunidades, em dois anos todas teriam destino diferente: algumas
multiplicariam o dinheiro; outras o esbanjariam; outras o guardariam:
outras ainda o dedicariam ao bem (ou ao mal) alheio.
Então, quem sabe, querer apaziguar todas as crianças e
jovens com medicamentos para que não estorvem os professores
já desesperados por falta de estímulo e
condições, ou para permitir aos pais se preocuparem menos, ou
ajudar as babás enquanto os pais trabalham ou fazem academia ou
simplesmente viajam, nem valerá a pena. Teremos mais crianças
e jovens aturdidos, crianças e jovens mais violentos e inquietos
quando a medicação for suspensa. Bastam, para
desatenção, agitação e tantas dificuldades
relacionadas, as circunstâncias de vida atual.
Recentemente, uma pediatra experiente me relatou que a cada tantos anos
aparecem em seu consultório mais crianças confusas,
atônitas, agitadas demais, algumas apenas sofrendo por
separações e novos casamentos, em que os filhos, que
não querem se separar de ninguém, são puxados de um
lado para o outro, sem casa fixa, um centro de referência, um casal
de pais sempre os mesmos. Quem as traz são mães ou pais em
igual estado. Correrias, compromissos, ansiedade por estar na crista da
onda, por participar e ser o primeiro, por não ficar para
trás, por não ser ignorado, por cumprir os horários,
as prescrições, os comandos, tudo o que tantas
pressões sociais e culturais ordenam, realmente estão nos
tornando eternos angustiados e permanentes aflitos.
Mudar de vida é difícil. Em lugar de correr mais, parar
para pensar, roubar alguns minutos para olhar, contemplar, meditar,
também é difícil, pois é fugir do
padrão. Então seguimos em frente, nervosos com nossos filhos
mais nervosos. Haja psicólogo, psiquiatra e medicamento para sermos
todos uns repolhos iguais.
Fonte: Revista Veja - Lya Luft
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