Se você está cansado de ouvir
desculpas, prepare-se. Gente que estudou o problema diz que há um
"boom" desses pedidos circulando no mundo --tanto no público quanto
no privado.
Sim, há especialistas em desculpas, e
não são gurus de autoajuda oferecendo o manual definitivo do
perdão.
"Há toda uma linha de estudos na
sociologia e na ciência política sobre o assunto, por causa
dos pedidos formais dos governos e das instituições", diz o
sociólogo carioca Alexandre Werneck, autor de "A Desculpa" (Record,
378 págs., R$ 39,90).
Seja a Fifa se desculpando, na última
quarta-feira (29/5), por problemas na retirada de ingressos da Copa das
Confederações, seja o que você costuma dizer ao chegar
atrasado a um compromisso, o fato é que a vida cotidiana se move
numa rede de desculpas.
E isso não precisa ser ruim, segundo
Werneck. Ele diz ter escrito o livro para reabilitar a desculpa, que acabou
virando sinônimo de mentira.
"Um dos motivos pelos quais conseguimos viver
socialmente é porque podemos pedir e aceitar desculpas. É um
mecanismo para manter relações e permitir
acordos."
Em tempos de relações virtuais, o
mecanismo se torna ainda mais importante, segundo a escritora americana
Susan McCarthy, criadora do site SorryWatch (vigilante das
desculpas).
"Nas redes sociais, as pessoas dizem as coisas
muito rapidamente e não há muito espaço para
sutilezas. E todos querem se mostrar. Isso aumenta as chances de falarem
coisas estúpidas ou malvadas. Então, têm que se
desculpar mais e mais", disse McCarthy à
Folha.
O site (www.sorrywatch.com)
analisa pedidos de desculpas na mídia, na história, na
cultura e na vida privada. E aponta quais são os mais esfarrapados,
destrinchando seus argumentos.
O observatório virtual de desculpas
está há quase um ano no ar. Embora a maioria dos posts sirva
para criticar os piores pedidos, McCarthy defende a prática: "Pedir
desculpas tem o poder de aproximar os seres humanos, resgatá-los de
seu isolamento, de suas tristezas e de seus ódios",
afirma.
REVELAÇÃO
Para pessoas que já estão
próximas, falar de desculpas desperta uma ponta de suspeita. A
associação com "mentira" pega. No melhor dos casos, seria uma
forma de não ser indelicado; no pior, um jeito de esconder algo
importante.
A psicoterapeuta Lúcia Rosenberg pensa de
outra forma: "Pedir desculpas é se revelar ao outro". A pessoa que
pede mostra ao parceiro como ela funciona e propõe que ele encare o
que ela fez (ou deixou de fazer) com um outro olhar.
Mas nem sempre as pessoas querem se mostrar e
fica difícil pedir desculpas.
"Existe essa coisa egoica ocidental de achar que
você precisa estar sempre por cima. As pessoas não percebem
quanta honra e quanta coragem é preciso ter para pedir
perdão. Não percebem quanta nobreza há nesse gesto que
parece humilhante", afirma a psicoterapeuta.
Retratar-se é um pedido e um sinal de
respeito, que vem da palavra latina "re-espectrum', olhar
novamente.
"O novo paradigma amoroso não é
dizer eu te amo, mas sim eu te enxergo", acredita Rosenberg.
O pedido de desculpas é um jeito de dizer
"não te vi na hora em que pisei na bola contigo, mas agora estou te
vendo".
Aceitar as desculpas é jogar essa bola
para frente, segundo o publicitário carioca Daniel Bovolento, 22,
que considera a traição um dos pedidos de
reparação mais difíceis de se aceitar.
Ele foi traído pela namorada quando
estava em uma viagem de trabalho. Soube por telefone e rompeu.
Voltou ao Rio no dia seguinte, quando se
encontraram para uma conversa. "Ela disse que sabia que eu não iria
desculpá-la, mas que não queria ser a grande
decepção de minha vida. A promessa embutida era eu não
vou mais fazer isso'. Eu repensei, engoli meu orgulho e resolvi reatar o
namoro", conta.
O caso ilustra o que o sociólogo
Alexandre Werneck considera o ritual da desculpa. "Envolve
demonstração de arrependimento, ato de
contrição e aposta no futuro."
Nesse ritual, quem pede reduz a
importância do passado e aumenta a do futuro. Já a pessoa que
aceita o pedido faz uma revisão do passado para seguir em
frente.
FORÇA
TERAPÊUTICA
Pedir desculpas também tem força
terapêutica. Nos "12 passos", programa de tratamento de
dependência química, faz parte do tratamento: é o nono
passo.
"O pedido é um exercício para
treinar um novo jeito de viver. Quando peço desculpas,
reforço meu propósito de mudança", diz Alexandre
Araújo, presidente da ONG Intervir para dependentes
químicos.
O passo ajuda o dependente em
recuperação a reconstruir suas relações sociais
em outras bases.
"Para chegar a pedir desculpas, a pessoa tem que
ter elaborado muito a situação. A reparação
é um aprofundamento e uma releitura de sua história", explica
Araújo, que trabalha com membros de entidades como a AA
(Alcoólicos Anônimos).
O programa dos passos, seguido pelo AA,
reforça que as desculpas devem ser dadas diretamente às
pessoas afetadas, sempre que possível.
É um ponto básico da boa desculpa,
mas está cada vez mais difícil de se encontrar, segundo a
"vigilante de desculpas" Susan McCarthy.
Um bom pedido, para ela, é quando a
pessoa entende o que deu errado, explicita o que aconteceu e assume a
responsabilidade por isso. A regra é a mesma para desculpas
íntimas e públicas.
"Muitas pessoas não foram ensinadas a se
retratar. Se não sabem fazer isso por falta de prática ou
porque nunca pensaram no assunto, vão pedir desculpas como se fossem
crianças autocentradas e orgulhosas, praticamente acusando a pessoa
para a qual deveriam se desculpar", diz McCarthy.
O básico é a melhor
estratégia
USE A PALAVRA
Diga com todas
as letras: desculpas. Se soar natural para você, pode usar o termo
perdão. Mas "foi mal" não serve
SEJA ESPECÍFICO
Diga o
que você fez concretamente. Não seja vago ("sinto muito pelo o
que aconteceu") nem dê o truque do condicional (desculpe-me se o que
fiz foi errado)
FALE DE CONSEQUÊNCIAS
Reconheça que a situação criada por você teve
efeitos em outra(s) pessoa(s). É por isso que você está
se desculpando com ela(s)
EXPLIQUE-SE
Conte as causas e
as circunstâncias envolvidas na situação, sem se
colocar na defensiva nem se desresponsabilizar ("foi fulano, é a
sociedade, é genético")
NÃO TERCEIRIZE
O pedido
tem que ser feito pessoalmente. Recursos como mandar recado ou comunicar
por porta-voz podem até manter as aparências, mas não
dão certeza de que a desculpa foi efetivamente dada e
aceita
Fonte: Iara Bidermande