Minha mãe faleceu muito jovem, quando eu ainda
não completara 15 anos. Faz muito tempo...
Depois de tantos anos sem ela, o que resta são
lembranças de criança e pré-adolescente e a certeza de
que, o que é determinante na formação dos valores
de vida de uma pessoa, assim como na composição de sua
base de dados de sentimentos e emoções possíveis -
exceto choques traumáticos futuros - já está
rascunhado nessa fase da vida.
Minhas lembranças são de uma mulher
alegre, geralmente com um lindo sorriso, sempre presente e por perto, para
passar um mertiolate nos arranhões dos joelhos e dar um beijo, um
abraço apertado que fazia passar qualquer dor. Acordar à
noite, sabendo que estaria por perto, dava uma enorme segurança e a
mão na testa fazia sumir a febre do sarampo...
Tive sorte de ter infância - brincar ao ar
livre, fazer batizado de bonecas com as amigas, caçar vagalumes ao
cair da tarde, viver cercada de cachorrinhos, subir em árvores,
enxergar sacis nos bambuzais - ler a coleção completa de
Monteiro Lobato para Crianças - comer pipoca e bolinho de chuva...
ah os sonhos com açúcar e canela - experimentar a vida cada
dia um pouco mais distante da casa, mas sempre à distância de
um grito que me fazia voltar correndo para uma lanche da tarde, preparado
por ela com carinho e atenção. Ou porque era hora de me
arrumar para a escola - lavada, enxaguada e cheia de talco.
Cuidava das minhas roupas, sentava comigo para fazer
as tarefas de escola - chamava minha atenção, corrigia,
às vezes com um chinelo bem ardido, as minhas artes ... e foram
muitas. E marcar minha operação de amídalas às
vésperas do carnaval que eu adorava... puxa!
Fazia meu pai amolecer para atender a alguns dos meus
pedidos insistentes ... participar de dois eventos na mesma semana... algum
passeio especial com amigos ... uma 'brincadeira dançante' em algum
clube da cidade...ou na casa da avó paterna, nas tardes de domingo.
Coisas tão ingênuas para os dias de hoje que parecem
sonhos... mas bem difíceis de conseguir naquela época.
Cuidava com muito carinho dos meus avós,
dedicava-se ao 'roupeiro de Santa Rita', costurando roupas para os mais
necessitados, dedicou-se com afinco às campanhas da Casa da Amizade
do Rotary Club, assim como sempre atendeu aos indigentes que batiam a nossa
porta.
Tocava piano e arranhava o violão e sabia um
pouco de inglês. Muitas vezes fiquei de castigo ao lado da 'vitrola'
onde se ouvia a Rádio Nacional ... conheci alguns programas de
cor.
Não era arrogante nem fútil, mas era
vaidosa - de esmalte e batom sempre vermelhos - e orgulhosa das origens de
sua família. Sabia quem era e era feliz - como esposa, como filha,
como irmã e, não sei se principalmente, como Mãe.
Em uma de nossas conversas de que me lembro bem, ela
dizia que sua maior alegria era ter cada filho e amamentá-lo . Somos
cinco irmãos, todos de parto normal e, com certeza, temos muitos
irmãos de leite, porque ela tirava o excesso e entregava ao banco de
leite da Santa Casa de Misericórdia de Lins.
Tanto ela quanto meu pai chamavam minha
atenção para não entrar em uma loja da cidade com um
pacote de mercadoria comprado na concorrência - para não ferir
o sentimento daquele comerciante. Aprendi a não judiar sequer de um
louva-a deus, a valorizar a família, respeitar os mais velhos, a
amar a Deus, levar a vida dentro do meu status socioeconômico e a ter
consciência de que, da própria consciência dos erros,
ninguém consegue fugir.
Aprendi , também, que, se houver
condição de ajudar alguém sob qualquer forma, devo
fazê-lo sem esperar retorno ou reconhecimento - a
satisfação de ajudar já é a recompensa.
Sua forma de viver deixou muitas lições
de vida que, com esforço e muitas retomadas, procuro viver e
transmitir - me aceitar como eu sou, sem querer agradar a todos. Não
me comparar com ninguém, assim como não comparar os que me
cercam - colegas, alunos - pessoas, de modo geral.
Minha mãe não era perfeita, não
sabia tudo - era apenas ela mesma - uma mulher de bem com a vida, para quem
a criação dos filhos, até o momento que pode, era uma
realização amorosa, uma opção de vida, uma
missão que nunca transferiu para ninguém.
Mães de 2013 - a sociedade e o mundo, de modo
geral, estão bem mais complicados - mas há uma certeza que
posso afirmar a vocês: só há Mãe feliz se
observar que seu filho está bem e seu filho estará bem sempre
- mesmo no olho do furacão que estamos vivendo, mesmo diante das
maiores dificuldades - se souber que você, Mãe, o ama,
aceita-o como é , embora se esforce por corrigir o que é
necessário, e está feliz em conviver com ele
cotidianamente.
É difícil e simples assim.
Em memória da minha mãe, um grande
abraço a todas as mães nesta data.
Fonte: Profa. Maria Emilce Ferreira Villela Pastorello