Estamos cercados de retângulos brilhantes.
Dos pequenos displays nos micro-ondas e rádios às TVs cada
vez maiores, passando por videogames, desktops, notebooks, tablets,
celulares e smartphones, praticamente não há momento em que
se viva distante deles. É só uma questão de tempo,
creio, para chegarem ao fundo de piscinas e mares.
Novos fabricantes desenvolvem, a cada ano,
versões mais leves, econômicas, resistentes e versáteis
dessas telinhas, que a partir deste ano serão até
dobráveis. Nos carros, TVs para motoristas já não
causam espanto. Dividem sua preciosa atenção com as telas do
painel, do GPS, do celular e, de vez em quando, até com o que
acontece na rua.
Nossa relação com a luz é
tão intensa que parece que vivemos de fotossíntese. Nas
hiperluminosas residências modernas, algumas noites ficam mais claras
do que os dias.
Pena que o cérebro humano, esse primitivo,
não esteja preparado para tanto brilho. Luz, para as mentes
consolidadas desde os primeiros hominídeos, vem do céu, do
fogo ou de raridades como um vaga-lume ou um metal radiativo. Luz branca,
ainda mais rara, só vem de um raio ou do Sol ao meio-dia. LEDs,
LCDs, plasmas e outras iridescências causam estranheza a nossos
mecanismos de atenção. Como gatos expostos ao flash de uma
câmera, ficamos meio paralisados diante eles.
Isso não impede a exposição
cotidiana a dezenas de retângulos brilhantes, deixando a mente em
estado de constante estímulo. Por instinto, quem passa muito tempo
em frente às telas permanece desperto até o momento em que
não resta ao corpo outra opção se não desligar
os disjuntores e desmaiar, até o sono ser interrompido pelo brilho
do despertador. Como quem vive no fuso horário da Califórnia,
o impulso de alguns brasileiros tecnológicos é deitar perto
das 3h e acordar às 11h. A maioria, que não pode dar-se esse
luxo, acaba dormindo pouco.
E mal. Um estudo publicado no periódico
técnico "Applied Ergonomics" revela que duas horas de
exposição à luz brilhante de um tablet ou equivalente
antes de dormir reduzem os níveis de melatonina, o hormônio do
sono, em cerca de 22%.
Essa carência provoca, além de
noites ruins, o aumento dos riscos de obesidade, diabetes e problemas
cardiovasculares. A falta de sono diminui a produtividade, aumenta o risco
de acidentes, prejudica o raciocínio e mata a libido. Por mais que
fanfarrões afirmem ser capazes de dormir poucas horas, não
há argumentos médicos que defendam essa tese, muito pelo
contrário.
Aplicativos para smartphone se propõem a
medir a qualidade do sono de seus usuários com base no movimento
captado por seus acelerômetros. A intenção é
nobre, embora seja fácil prever alguns resultados. Quem checa
mensagens ou visita websites antes de dormir pode levar
preocupações do trabalho para a cama. Quem joga ou interage
com redes sociais tende a ficar mais alerta. Até mesmo quem assiste
a um vídeo bobo no telefone fica exposto a uma luminosidade sem
precedentes. Mal dormidos, vários acordam no meio da noite e checam
suas redes. Não pode fazer bem.
Por mais que aparelhos eletrônicos
fascinem, é preciso limitar seu uso antes de ir para a cama. Talvez
seja um excelente motivo para retomar o antigo hábito de
conversar.
Fonte: Luli Radfahrer, para Folha