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Bem-estar cresce à medida que envelhecemos
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Data da Notícia: 19/10/2011


Não se trata de mera frescura: a ciência diz que existe, sim, a crise da
meia-idade e que ela afeta homens e mulheres em todo o planeta. Resultados
de pesquisas em vários países, na última década, têm mostrado que essa fase
bate em média entre 40 e 50 anos, mas varia muito de acordo com a região.
Mas um dado novo, curioso e surpreendente indica que a crise é só o fundo
do poço. Depois de atingir o ponto mais baixo de "bem-estar" (alguns
pesquisadores chamam mesmo de "felicidade"), a pessoa dá a volta por cima e
vai ficando mais feliz por quase todo o resto da vida. É estranho, pois o
senso comum indicaria que a felicidade tende a diminuir a cada velinha no
bolo de aniversário. 

Os gráficos ligando satisfação pessoal e idade mostram uma curva em "U". A
felicidade começa alta, vai caindo até chegar à base da letra e volta a
subir com a idade. Os números variam muito, porém. Em uma pesquisa, a
meia-idade chega aos 50 para americanos; em outra, aos 44,5. Os brasileiros
atingem a crise aos 46,7, para um estudo, e, para outro, aos 36,5. Na
Ucrânia, o mal-estar máximo chega aos 62,1 anos. "Essa diversidade vem das
amostras pequenas nesses países. O número varia menos em grandes amostras",
diz um dos autores do estudo da curva do "U" do bem-estar, o economista
Andrew J. Oswald, da Universidade de Warwick, Reino Unido. O estudo
analisou 500 mil pessoas, entre americanos e europeus, que responderam
sobre seu estado emocional. 

Depois de se checar detalhes que poderiam afetar os resultados (renda, vida
afetiva etc.), conclui-se que americanos atingem a crise aos 52,6 e
europeus, aos 46,5. "A Segunda Guerra parece ter cobrado um preço maior
dessa geração de europeus", na interpretação de Oswald. E o que explicaria
o fenômeno em geral? 

ACEITAÇÃO

"Minha teoria é que na meia-idade enfrentamos nossas deficiências e as
aceitamos. Então ficamos mais contentes com a vida", diz Oswald. "Eu
poderia ter sido jogador de futebol e feito gols contra o Brasil, mas
percebi que teria de me contentar em ser professor", brinca. Outro estudo
criou um "instantâneo da distribuição pela idade do bem-estar psicológico
nos EUA" com base em 340.847 pessoas. E cravou a crise em torno de 50.
Nesse estudo, a pessoa avaliava, numa escada com degraus de zero a dez,
como se sentia em relação à vida. "Em qual degrau você se sente agora?" era
a pergunta. O líder da pesquisa, Arthur A. Stone, da Universidade de Stony
Brook, disse à Folha que considera a curva em "U" um enigma. "Nós e muitos
outros estamos investigando fatores responsáveis, mas ainda não sabemos." 

Entre os fatores que eles esperavam que teriam impacto no resultado e não
tiveram estão o gênero, o fato de ter filhos com menos de 18 anos em casa,
o desemprego e a falta de um parceiro. Já o pesquisador Andrew Clark, da
Paris School of Economics, usou dados de uma pesquisa britânica para seus
estudos sobre a curva do "U". Um questionário com 12 itens registrou as
sensações de estresse, depressão e falta de confiança dos entrevistados. As
pessoas responderam se perdiam o sono por preocupação, se se sentiam sob
pressão, se perderam a autoconfiança e se pensavam em si como alguém sem
valor. Clark disse à Folha que a curva em "U" reflete o que acontece com
gente de mais idade: promoções, filhos etc. 

"A diferença entre os países reflete as diferenças nesses fatores. Se você
tem filhos aos 20, está lidando com adolescentes aos 35, se tem filhos aos
35, vai lidar com adolescentes aos 50. O divórcio também pode ocorrer em
diferentes idades, em cada país. Isso soa como explicação", diz. E lidar
com adolescentes estressa qualquer cristão. Clark também concorda com
Oswald sobre a influência da perda de altas expectativas no aumento do
bem-estar após a meia-idade. E dá o mesmo exemplo do jogador de futebol,
embora o seu seja mais nacionalista: "Um dia desses eu desisti de jogar
pela Inglaterra". A psicóloga Laura Carstensen, da Universidade Stanford,
EUA, é autora de uma teoria pioneira que explica a alta da felicidade na
velhice. 

SELETIVIDADE

Segundo a sua "teoria da seletividade socioemocional", à medida que os
horizontes de tempo vão ficando mais curtos, as pessoas priorizam
determinados objetivos emocionais. Passam a evitar amigos chatos, por
exemplo. "A experiência emocional fica melhor com a idade porque as pessoas
passam a investir esforço em assuntos importantes para elas", escreveu
Carstensen em artigo na "Psychology and Aging". O artigo descreve um
experimento diferente dos outros. Enquanto os dados coletados por Oswald e
Stone produziram um "instantâneo", uma amostra pontual na população, a
equipe da psicóloga seguiu um mesmo grupo de pessoas por uma semana e
repetiu o questionamento cinco e dez anos depois. 

A equipe concluiu: "O envelhecimento está associado com bem-estar geral,
maior estabilidade emocional e mais complexidade, evidenciado pela maior
ocorrência simultânea de emoções positivas e negativas". Dá para entender a
capa da revista francesa "Le Point", com uma bela mulher sorridente, a
estilista Inès de La Fressange, 53, e o título: "A vida começa aos 50". Ou
porque, quando pediram ao dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) um
conselho aos jovens, ele foi incisivo: "Envelheçam". 



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Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/973973-bem-estar-cresce-a-medida-que-envelhecemos-diz-pesquisa.shtml


		

Fonte: Por Ricardo Bonalume Neto (De São Paulo)



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