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Um mutirão para formar engenheiros
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Data da Notícia: 29/08/2011



Guimarães, da Capes: "O Brasil está ganhando medalhas internacionais em
física, química e matemática, fruto da melhora na formação dos
professores"
Para inovar, é preciso ter pessoal especializado, costumam dizer todos os
especialistas da área. Como em outros setores, o Brasil enfrenta atualmente
uma escassez de profissionais qualificados, especialmente em áreas como
engenharia, química e outras. O presidente da Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Jorge Guimarães,
fala, nesta entrevista ao Valor, dos planos do governo para incentivar a
formação e aperfeiçoamento da mão de obra com vistas ao impulso inovador,
principalmente no setor produtivo. 

Valor: Há falta de profissionais especializados para lidar com questões
relativas à inovação. Quais as medidas tomadas para contornar esse
problema?

Guimarães: A questão da formação de engenheiros é um problema mundial. No
Brasil, assume proporções agudas porque formamos poucos profissionais. Há
várias causas em sua base. A primeira é o fato de, por muito tempo, o país
não se desenvolver. Resultado: a profissão ficou sem perspectiva. Os bons
engenheiros foram para outros setores. Na medida em que o país começa a se
desenvolver e tem muitos projetos em andamento, a escassez de profissionais
torna-se mais aguda. Pode-se perceber isso por uma análise interessante: em
2004, criamos, na Capes, um plano de seis anos para incentivar a
pós-graduação. Com isso, prevíamos um aumento considerável de doutores. As
metas foram alcançadas em todos os cursos, menos na engenharia. A partir de
2010, esperávamos formar 2.900 doutores na engenharia e na computação,
juntos. A demanda pelo curso de engenharia é grande, o que não é o caso da
pós-graduação.

Valor: Os profissionais não precisavam da pós-graduação?

Guimarães: O mercado absorvia o pessoal com salários atraentes. Então, a
bolsa da Capes não era competitiva. Adotamos um conjunto de ações para
amenizar isso. Ainda assim, há grande deficiência não de doutores em
engenharia, mas de engenheiros formados. Como a carreira está na base do
desenvolvimento dos países, essa área é fundamental. A questão da inovação
também está embutida nisso. Para inovar, é preciso fazer ciência. Sem
ciência, não se tem patente, por exemplo. Mas é bom lembrar: o Brasil não
tem 500 anos, tem 200 anos. Quando a Universidade de São Paulo, a mais
antiga e mais qualificada do país, foi criada, em 1934, a Universidade
Harvard já tinha 300 anos. A Capes e o Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) foram criados em 1951. 

Valor: Como o plano de aumentar o número de doutores engenheiros não deu
certo, o que o governo pretende fazer?

Guimarães: Em 2009, resolvemos formar uma comissão para definir como
enfrentar a questão. Finalmente estamos com um projeto praticamente pronto.
Estão faltando alguns ajustes finais. A comissão envolve vários órgãos do
governo, como a Capes, CNPq e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep),
entidades empresariais a exemplo da Confederação Nacional da Indústria
(CNI) e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), além de
associações da área de engenharia. Vamos apresentar as propostas aos
ministros Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, e Fernando Haddad,
da Educação. O plano é duplicar a formação de engenheiros e tecnólogos até
2015. Hoje, formamos 30 mil engenheiros e 18 mil tecnólogos por ano. 

Valor: Como fazer os jovens se interessarem por essa profissão?

Guimarães: Há um enorme mercado, enorme empregabilidade. Um problema sério
é a educação básica, a preparação dos jovens para enfrentar os exames
seletivos e ingressar nos cursos de engenharia. Um dos motivos da falta de
engenheiros é que o curso exige muito dos alunos. Eles têm que se dedicar
mais aos estudos na comparação com outras carreiras. Esses alunos têm que
ter uma base melhor em matemática e ciência. Nosso projeto identifica essas
necessidades, além das causas da evasão nas escolas de engenharia públicas
ou privadas, da ordem de 60%. Isso sem falar na pressão das indústrias, que
procuram os estudantes antes de formados. Se eles forem de uma camada mais
humilde, acabam abandonando o curso para ganhar R$ 3 mil ou R$ 4 mil. 

Valor: A Capes pode fazer algo em relação ao ensino básico?

Guimarães: Já está fazendo. Em 2008, a Capes assumiu a formação de
professores para a educação básica. Há programas muito fortes, com
mecanismos para vencer essas dificuldades. No caso específico da
engenharia, propomos um plano de ataque aos problemas detectados.
Sugerimos, por exemplo, que os melhores alunos de matemática e ciências
recebam uma bolsa da Capes para monitorar estudantes de engenharia da mesma
instituição. Os alunos da engenharia também receberiam bolsa para se
dedicar mais aos estudos. As escolas, por sua vez, assumiriam o compromisso
de ensinar matemática e ciências para alunos de escolas da periferia nas
férias de verão. Há também o programa de formação no exterior, com ênfase
para as áreas tecnológicas e exatas. 

Valor: Há resultados do programa de formação de professores?

Guimarães: Registramos avanços consideráveis em dois anos. O Brasil está
ganhando medalhas internacionais em física, química e matemática, fruto da
melhora na formação dos professores. É um programa de longo prazo. Os
países que fizeram isso, como a Coreia, levaram mais de uma geração para
chegar aos excelentes resultados de hoje. Temos outros projetos, como o
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, de treinamento da
futura geração de professores. Até o fim do ano teremos 30 mil bolsistas e
em 2012, 45 mil. A meta é chegar a 100 mil bolsistas em 2014.
 
Valor: Como é o programa de formação no exterior?

Guimarães: O Ciência sem Fronteiras terá 75 mil bolsas financiadas pelas
duas agências federais, CNPq e Capes, e 25 mil pelo setor privado. São
várias modalidades, desde 'graduação sanduíche', quando o estudante vai
para o exterior por 12 ou 15 meses, a pós-doutorado. Até professores
estarão envolvidos nessa questão. Haverá também a absorção de jovens do
exterior, brasileiros ou não, já titulados, com boa produção científica,
que se disponham a trabalhar no país. E estímulo para pesquisadores
seniores estrangeiros virem para o Brasil. 

Valor: Quantos estudantes são financiados atualmente pela Capes no
exterior?

Guimarães: Hoje são 5 mil estudantes, e nos próximos anos chegaremos a 40
mil. Temos convênio com cerca de 40 países e estamos preparados para
deslanchar esse novo projeto. O foco é tecnologia e inovação. O Brasil
atingiu um bom nível na produção de conhecimento, com o 13º lugar no mundo.
Nos próximos dez anos, devemos entrar no grupo dos dez maiores produtores
mundiais de conhecimento. 
		

Fonte: Laura Knapp | Para o Valor, de São Paulo



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