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Espelho nosso
"Poucas crianças aprendem a dividir brinquedos, conviver com diferenças e tolerar defeitos." Data da Notícia: 17/06/2011 Faz um tempo que observo a movimentação nos horários de entrada e saída das
escolas. Fora os carros, que atrapalham o trânsito em todo o entorno, há
crianças e adolescentes que saem e entram, sozinhos ou com seus pais.
É uma confusão geral: correria, gritaria, malas enormes que são arrastadas
sem o menor cuidado e que produzem muito barulho, buzinas estridentes etc.
Sempre fico impressionada com a indiferença das pessoas envolvidas nessas
situações frente a esse caos que vivenciam.
Não é muito diferente o cenário que se observa durante o período do
recreio, na maioria das escolas. As crianças parecem ficar desnorteadas com
tanta liberdade: correm e gritam sem direção e, invariavelmente, também sem
contexto.
O corre-corre e os gritos não fazem parte de alguma brincadeira que exige
tais manifestações.
Um dia desses, vi um garoto de uns 10 anos, mais ou menos, correndo em
direção a alguém quando saía da escola. Talvez o pai ou um colega, não pude
identificar. Acontece que, em seu trajeto, ele esbarrou com força em outro
menino um pouco menor que ele que, pela força do empurrão, foi ao chão.
Você imagina o que aconteceu logo em seguida, não é, leitor? Uma briga
entre os dois meninos que, para ser apartada, precisou de dois adultos.
O garoto que corria não via mais nada além da meta que ele queria alcançar.
Tudo o que estava em seu caminho, ele ignorou: chegou até mesmo a pisar em
uma mala estacionada, o que provocou um certo desequilíbrio em sua jornada.
Ele conseguiu contornar esse obstáculo, mas ficou no próximo, que era o
outro aluno.
Dias depois, ao ler o jornal, vi uma notícia que me fez lembrar desse
caso.
O serviço telefônico da Polícia Militar de São Paulo registra, em média, 70
ligações por dia para comunicar desentendimentos ocorridos no trânsito.
Pelo menos 20 desses conflitos acabam com violência física entre os
motoristas -todo santo dia. A relação entre os casos é inevitável. Nesse
mundo em que a vida é vivida com velocidade máxima e em que o outro quase
sempre é um estorvo ou uma ameaça, os adultos estão dispostos a brigar por
qualquer coisa a todo o momento.
O trânsito é uma oportunidade excelente para isso, já que é caótico e que
consome um tempo precioso da vida das pessoas.
Por que as crianças agiriam de modo diferente, se observam atentamente tudo
o que acontece no mundo adulto? A criança, de uma maneira geral, só aceita
que outra seja seu par se essa estiver a serviço de seus interesses: a
brincadeira que quer brincar, o passeio que quer dar, a lição que precisa
fazer etc. Fora dessas situações, outra criança a atrapalha, a ameaça.
Ter de compartilhar brinquedos, conviver com a diferença e tolerar defeitos
não são atos comuns entre as crianças. Poucas delas aprendem essas lições,
seja na escola que frequentam seja em casa, com pais e parentes.
O curioso é que, ao observarmos a vida dos mais novos, logo percebemos que:
eles brigam em demasia; exageram nas reações quando se defrontam com
situações que lhes trazem dificuldades, decepções ou frustrações; não sabem
administrar tampouco resolver os conflitos que a convivência provoca.
Entretanto, não temos a mesma facilidade para constatar que estamos fazendo
o mesmo em nossas vidas e que, portanto, os mais novos têm aprendido
conosco a agir como agem.
Se conseguirmos retirar a venda de nossos olhos e enxergar tudo o que temos
ensinado a eles, talvez fique menos árdua a tarefa educativa, em família ou
na escola.
Só assim teremos mais compaixão e tolerância frente aos erros que eles
cometem já que, afinal, são provocados por nós mesmos.
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