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Para além das perdas do envelhecer
"" Data da Notícia: 07/06/2011 Por Carmo Gallo Netto
A consciência da possibilidade de envelhecimento saudável e o conhecimento
de como consegui-lo são ainda desconhecidos, mesmo por idosos de classes
sociais mais favorecidas. O que esperar, então, de idosos residentes em
regiões expostas ao risco de vulnerabilidade social? Quando fez o mestrado
em gerontologia, a pedagoga Wanda Pereira Patrocinio inteirou-se dessa
realidade ao pesquisar as representações sociais das pessoas com mais de 50
anos que, fora do mercado de trabalho, buscavam alternativas para
sobreviver em cooperativas populares de Campinas. Trabalhou com
cooperativas da periferia que se dedicavam à costura, à alimentação, à
reciclagem de resíduos sólidos e à seleção de entulhos, realizando um
perfil desses cooperados. A pedagoga focou, primordialmente, pela
diversidade de atividades, as áreas de costura e entulhos. Estudou a visão
que essas pessoas tinham sobre a velhice e o envelhecimento e como
socialmente se viam e se sentiam vistas em relação às pessoas do seu
entorno. Nessa oportunidade, pesquisou como esses idosos consideravam o
envelhecimento em relação ao tratamento que recebiam do outro e os tipos de
relações que mantinham com ele. Na ocasião, Wanda se deu conta de que
existiam várias representações. Era a velhice associada à doença, à
decrepitude, sendo vista como a última etapa do ciclo vital, a fase da vida
em que se espera a morte. Poucos dos idosos distinguiam-lhe aspectos
positivos e a viam como um processo natural da vida. Ela percebeu então
que, apesar da significativa produção acadêmica que desmistifica a velhice
associando-a à doença, aponta a possibilidade de se envelhecer de forma
saudável e atribui sua qualidade às condições de vida, essas informações
não chegavam ao idoso pobre, àquele que mais precisa delas. Essa barreira
não fora ainda rompida. “Foi aí que me perguntei: o que adiantam as
conclusões dos estudiosos para a vida prática dos idosos se elas não chegam
a quem mais precisa? Essa foi a motivação da minha pesquisa no doutorado.
Como pedagoga, acredito que a educação pode fazer alguma coisa para
minimizar esse problema”, afirma. Propôs-se então a realizar uma ação
prática, com embasamento teórico-científico, que possibilitasse a essas
pessoas mudarem de atitudes e comportamentos de forma a encarar melhor e
mais positivamente o envelhecimento. Por não acreditar que apenas palestras
sejam suficientes para mudar atitudes e comportamentos, Wanda queria
desenvolver uma forma de ajudar esses idosos a mudarem o seu dia a dia
vivenciando problemas concretos. Esta convicção a levou à implementação e
análise de um programa de educação popular em saúde para um envelhecimento
saudável que não utiliza apenas palestras, mas também práticas. O trabalho
deu origem à elaboração de tese de doutorado orientada pela professora
Anita Liberalesso Neri da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp. A
pesquisadora desenvolveu o programa em duas comunidades centradas nos
bairros Orosimbo Maia e Parque da Figueira, da região Sul de Campinas.
Ambas apresentam alta incidência de idosos e possuem centros de saúde.
Desta forma, além de contar com a colaboração dos centros de saúde na
aglutinação dos idosos, conseguia atingir os bairros próximos. Nesses
locais utilizou dependências cedidas por entidades religiosas que
constituíam referência para as comunidades. No Orosimbo Maia, as atividades
foram desenvolvidas no salão social já utilizado para palestras e
atividades de ginástica desenvolvidas pelo Centro de Saúde. No Parque da
Figueira, utilizou uma sala de aula destinada à educação de jovens e
adultos. Nesses locais, as atividades foram conduzidas por ela com apoio de
uma auxiliar de pesquisa, durante cerca de duas horas e meia, uma vez por
semana, durante cinco meses, para dois grupos com idades entre 60 a 75 anos
e média de 66 anos, constituídos em sua maioria por aposentados ou
pensionistas viúvas.
Engajamento
O programa implantado baseou-se na perspectiva de Paulo Freire e na
política de envelhecimento ativo proposta pela Organização Mundial de Saúde
(OMS). Wanda explica que “a educação popular na perspectiva de Paulo Freire
visa a desenvolver o reconhecimento de si mesmo como sujeito, a visão
crítica sobre as estruturas sociais e o engajamento ativo”. Para tanto, a
prática educativa deve basear-se em relações de confiança entre os
participantes, no diálogo e na utilização de conteúdos de interesse dos
educandos. Ao implantar em 2005 uma política de envelhecimento ativo, a OMS
considera que para consegui-lo as pessoas precisam ter participação social,
saúde, segurança e receber educação contínua. Constituiu escopo do estudo
verificar a influência da prática sobre a mudança de atitudes dos idosos em
relação à velhice, à saúde, à participação social e a aspectos
psicossociais. Para tanto foram aplicados questionários e utilizadas
escalas sobre variáveis sociodemográficas, psicossociais, de participação
social, de saúde e sobre atitudes em relação à velhice. Esses dados foram
colhidos em três momentos distintos: por ocasião da formação do grupo e
antes do início das atividades propriamente ditas; decorridos os cinco
meses de atividades programadas com base em temas escolhidos pelos idosos;
e seis meses depois de sua conclusão. A pedagoga lembra que a educação
popular parte sempre do que o educando sabe. Por isso, foram selecionados
para cada um dos grupos os temas sugeridos pelos seus componentes durante a
aplicação do primeiro questionário. Embora se verificassem diferenças na
composição dos conteúdos temáticos desses grupos, constaram das atividades
práticas e das abordagens teóricas temas como envelhecimento saudável;
alimentação saudável; atividade física; memória; saúde bucal; uso de
medicamentos; problemas de saúde e doenças mais comuns na velhice;
violência e maus-tratos; sono e envelhecimento; imagem positiva da velhice;
emoções e sentimentos; e histórias de vida. Entre as atividades
terapêuticas, também desenvolvidas no programa, realizaram-se sessões de
alongamento, automassagem, lian gong, ritos tibetanos, tai chi chuan,
argila medicinal e yoga, que tiveram como objetivo o enfrentamento de
problemas musculares, articulares e posturais causadores da dor. Alem de
participarem da discussão dos temas por eles escolhidos ou sugeridos, os
idosos fizeram exercícios e atividades práticas. Para verificar o que tinha
sido incorporado pelos grupos em decorrência das experiências vividas, ela
comparou, utilizando análise estatística, os resultados obtidos por meio do
mesmo questionário aplicado no pré-teste, na conclusão do programa e seis
meses depois. As análises estatísticas e de conteúdo mostraram que em
relação ao pré-teste houve mudanças principalmente em relação às atitudes.
Anteriormente os idosos, considerando o predomínio das limitações,
entendiam que a velhice levava a mais perdas que ganhos. No pós-teste o
resultado se inverteu, com a grande maioria julgando que a velhice comporta
ganhos e vantagens. Seis meses depois, eles constatavam que a velhice traz
tanto perdas quanto ganhos. Segundo Wanda, o programa conseguiu eliminar a
visão negativa da velhice, porque, mesmo percebendo a ocorrência de perdas
físicas, os idosos passaram a valorizar a maturidade, o conhecimento, a
capacidade de enxergar a vida e de melhor compreensão do outro que a
velhice proporciona. Os resultados mostraram-se igualmente positivos em
relação ao aumento do tempo dedicado à atividade física, porque durante o
programa os idosos foram orientados a melhorar o que já efetivamente
faziam. Na alimentação verificou-se estatisticamente um aumento
significativo no consumo de legumes e verduras, que ela atribui à confecção
da cartilha realizada em conjunto durante o programa. A melhora das
condições de saúde também foi avaliada de forma positiva. Entretanto, a
recorrência aos sintomas depressivos se mostrou maior seis meses depois,
para um dos grupos pesquisados. Ela acredita que durante a participação no
programa os participantes se aproximaram e houve trocas, principalmente
entre as viúvas, que antes do programa se sentiam mais solitárias. A
participação social aumentou o ânimo, a disposição e a alegria. Embora com
resultados não satisfatórios neste particular, a pesquisadora considera o
resultado indicativo da importância da participação contínua em atividades
desse tipo.
Conclusões
Face ao trabalho desenvolvido a pedagoga se permite algumas conclusões. Em
relação aos idosos estudados, entende que as análises estatísticas e de
conteúdo mostraram mudanças nas atitudes em relação à velhice, com
diminuição de posturas negativas e aumento das positivas; percepção de que
a velhice comporta tanto ganhos como perdas; melhora no tempo diário da
prática da atividade física; melhora no consumo diário de verduras e
legumes; melhora em relação à satisfação com a vida e em relação à saúde.
Acredita que o desenvolvimento de um programa educacional baseado no modelo
de Paulo Freira e realizado de forma multidisciplinar, com conteúdos
adequados e de interesse dos idosos, mostrou a importância da prática do
conceito de educação em saúde, que visa a mudança de comportamentos
individuais e que intervenções desse tipo podem favorecer a saúde física e
mental dos idosos. Considera também que o modelo de programa desenvolvido
pode contribuir para outros programas educacionais, principalmente em
relação à metodologia de ensino e à forma de desenvolvimento dos conteúdos
temáticos, descritos no trabalho de modo a possibilitar o aproveitamento
por educadores. Ela defende ainda a utilização da metodologia nos programas
de educação de adultos, em salas em que exista predominância de idosos,
cada vez mais presentes – em que os conteúdos temáticos podem ser
utilizados como temas geradores –, e na área de educação em saúde, em que
pode contribuir para os serviços oferecidos pelos centros de saúde. Para
Wanda, infelizmente, em muitos programas envolvendo qualidade de vida ainda
prevalecem palestras informativas: “A metodologia que desenvolvemos
utilizando a educação popular, e que descrevemos detalhadamente, pode
tornar esses programas muito mais efetivos para a mudança de atitude.
Trata-se do primeiro passo para a mudança de comportamento”, conclui. A
pesquisadora participa do Grupo Tempo/GER, parte integrante do Ambulatório
de Geriatria do HC da Unicamp, que desenvolve estudos e práticas sobre
envelhecimento. Ela afirma que, “além de estudos teóricos, o grupo está
querendo efetivar projetos de implementação prática em comunidades para que
pesquisas como esta não fiquem apenas em uma estante”.
Publicado no Jornal da Unicamp
Campinas, 30 de maio a 5 de junho de 2011 – ANO XXV – Nº 496
http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2011/ju496_pag9.php#
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Wanda Pereira Patrocinio é coordenadora do Curso de Especialização em
Gerontogeriatria da Unilins, que está com matrículas abertas, na modalidade
semi-presencial. |
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