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Bullying não é nada disso
"Além de banalizar o conceito, o que mais conseguimos ao abusar desse termo? Alarmar os pais" Data da Notícia: 27/05/2011 Há muita gente que não aguenta mais ouvir falar de bullying. O assunto é
tema de reportagens nos jornais diários de todos os tipos, nas revistas
semanais, nas prateleiras das livrarias, nas bancas de revistas, na
internet etc.
Já conseguimos esvaziar o sentido dessa palavra e seu conceito de tanto que
a usamos e de tanto fazer associações indevidas com o termo.
Basta um pequeno drama ou uma grande tragédia acontecer, envolvendo jovens,
que não demora a aparecer a palavra mágica. Agora, ela serve para quase
tudo.
Além de banalizar o conceito, o que mais conseguimos com o abuso que temos
feito dele? Alarmar os pais com filhos de todas as idades.
Agora, a preocupação número um deles é evitar que o filho sofra o tal
bullying. O filho de quatro anos chega em casa com marca de mordida de um
colega? Os pais já pensam em bullying. A filha reclama de uma colega
dizendo que sempre tem de ceder seu brinquedo, ou o filho diz que tem medo
de apanhar de um colega de classe? Os pais pensam a mesma coisa.
Alguns deram, por exemplo, de reclamar que a escola que o filho frequenta
tem, no mesmo espaço, estudantes de todas as idades e dos vários ciclos
escolares.
Então agora vamos passar a considerar perniciosa a convivência entre os
mais jovens porque há diferença de idade entre eles? Decididamente, isso
não é uma boa coisa.
As crianças e os jovens aprendem muito, muito mesmo, com o convívio com
seus pares mais novos e mais velhos. Ter acesso a alguns segredos da vida
adulta pelas palavras de outra criança ou de um adolescente, por exemplo, é
muito mais sadio e interessante do que por um adulto. Um exemplo? A
sexualidade.
Outro dia ouvi um diálogo maravilhoso entre uma criança de uns dez anos e
um adolescente de quase 16. O assunto era namoro. Em um grupo, os mais
velhos comentavam suas façanhas beijoqueiras com garotas. A criança "pelo
que entendi, ele era irmão de um dos mais velhos" passou a participar da
conversa querendo saber detalhes do que ele chamou de beijo de língua e
ameaçou começar a também contar suas vantagens.
Logo a turma adolescente reagiu, e um deles falou que ele era muito criança
para entrar no assunto. E um outro disse, sem mais nem menos: “Agora você
está na idade de ouvir essas coisas e não de fazer, está entendido?”. O
menor calou-se e ficou prestando a maior atenção à conversa dos maiores,
sem intervir.
Imaginei a cena se tivesse acontecido com o garoto de dez anos e adultos.
Não seria nada difícil que eles dessem atenção ao menino, que quisessem
saber e fornecer detalhes a respeito das intimidades que podem acontecer
num encontro entre duas pessoas. Muito melhor assim do jeito que foi, não é
verdade? Com a maior simplicidade, o garoto foi colocado em seu lugar de
criança e nem se importou com isso, mas, mesmo assim, pôde participar como
observador da conversa dos mais velhos.
Conflitos, pequenas brigas, disputas constantes acontecem entre crianças e
jovens? Claro. Sempre aconteceram e sempre acontecerão. Mas esses fatos, na
proporção em que costumam acontecer, não podem ser nomeados como bullying.
Fazer isso é banalizar o tema, que é sério. Aliás, isso tudo acontece sem
ultrapassar os limites das relações civilizadas se há adultos por perto.
Essa é nossa questão de sempre, por falar nisso.
O verdadeiro bullying só acontece em situações em que os mais novos se
encontram por conta própria, sem a companhia e a tutela de adultos, sem
ainda ter condições para tal.
Caro leitor: se você tem filhos, não os prive da companhia de colegas
diferentes no comportamento, na idade etc.
Esses relacionamentos, mesmo conflituosos, são verdadeiras lições de vida
para eles que, assim, aprendem a criar mecanismos de defesa, a avaliar
riscos e, principalmente, a reconhecer as situações em que precisam pedir
ajuda. |
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