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A questão pública do novo envelhecimento
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Data da Notícia: 09/05/2011


Guita Debert, que integra a coordenação da área de Ciências Humanas e
Sociais da FAPESP e coordena o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp,
destaca que trabalhar com a velhice representa um enorme desafio, já que a
questão passou por muitas modificações recentes. Um dos principais panos de
fundo dessa mudança é que a velhice, que historicamente dizia respeito à
esfera privada, vem se tornando cada vez mais uma questão pública. “A
velhice passou a fazer parte da geografia social, por assim dizer. À medida
que a gerontologia se consolidou como saber específico, criado para
identificar necessidades do idoso, ela se tornou um ator político e também
um agente do mercado de consumo”, afirmou.

Inicialmente focada na ideia do idoso como um indivíduo que perde os papéis
que tem na sociedade, a gerontologia passou a mudar seu enfoque a partir da
década de 1980. 

“Em vez de um momento de perdas, a velhice passou a ser considerada um
momento de lazer, de novas experiências e projetos. A velhice foi deixando
de ter o sentido de uma perda do papel na sociedade e se tornou o momento
de direito ao não-trabalho, na qual o lazer se torna central”. Segundo
Guita, o Brasil adquiriu know-how e sofisticação nas opções de lazer e
atividades para os idosos. Mas isso se limita aos “jovens idosos”, isto é,
aquela parcela que preserva sua autonomia funcional. “Há um grande
contraste. Para os idosos que têm a autonomia funcional comprometida,
estamos em estágio precário, não oferecemos nada”, afirmou.

Para integrar o idoso à cidade, segundo a pesquisadora, não basta levar em
conta apenas a diversidade de poder aquisitivo, raça e local de moradia,
entre outros fatores. É necessário também pensar nas diferenças de
autonomia e capacidade. “É preciso avaliar sobretudo as diferenças de
custos de políticas públicas para os idosos ‘jovens’ e para os outros. É
hipocrisia dizer que existe uma política para idosos, se ela só está
beneficiando justamente a parcela que tem menos dificuldades. São boas
iniciativas, mas têm foco apenas em uma parcela privilegiada dos idosos”,
disse. A antropóloga destacou também que as mudanças ocorridas no espaço
urbano recentemente podem permitir um aprimoramento da autonomia do idoso.
“Devemos fugir da confusão entre morar só e estar submetido à solidão.
Principalmente porque hoje é possível operar com a ideia da intimidade a
distância, viabilizada pelos meios de comunicação, sobretudo eletrônicos. E
isso pode ocorrer até mesmo fora das relações familiares”. Segundo ela, a
gerontologia ainda valoriza profundamente a ideia de manter o idoso junto à
família, fechado no universo privado. “É importante rever essa ideia,
quando pensamos na cidade que acolhe o idoso”, afirmou.

Estudos realizados em ciências sociais, em especial na antropologia,
mostram que se tinha pouca informação sobre a vida do idoso há 100 ou 200
anos, segundo Guita. Ainda assim, é provável, segundo ela, que a vida no
seio da família tenha sido a preferência do idoso apenas quando ele não
tinha a opção de ser autônomo. A antropóloga sugeriu também que seja
repensada a oposição entre integração e segregação. Segundo ela, os
trabalhos sobre envelhecimento não confirmam a ideia de que a integração
com sociedade multigeracional garante o bem-estar do idoso. “Muitas vezes,
nos ambientes onde todos são idosos, a velhice deixa de ser uma marca
identitária e a satisfação passa a ser maior. Há uma busca de independência
e de estar entre os iguais, de forma similar aos adolescentes. É importante
não ter uma visão binária de segregação e integração”, afirmou. A
preservação da vida na comunidade é outra ideia predominante no senso
comum, segundo Guita. Para preservar a qualidade de vida do idoso, nessa
concepção, o indivíduo deveria permanecer sempre na mesma casa, ou bairro.

“Mas isso nem sempre é verdade, porque a dinâmica urbana é muito intensa.
Os bairros podem passar por rápidos processos de degradação. Ou podem
passar por um súbito enriquecimento, fazendo com que os antigos moradores
desapareçam. Nesses casos, as perdas da coletividade estão muito presentes.
A ideia de que a comunidade é sempre boa e deve permanecer deve ser
revista”, disse. A pesquisadora destacou também a importância de se dar voz
aos idosos. “Essa já é uma ideia muito presente, mas é preciso valorizar a
pluralidade de vozes. Não se pode ouvir representantes, mas os
protagonistas, em toda sua diversidade. É preciso que haja vozes
dissonantes”, disse. Guita criticou ainda as políticas públicas brasileiras
em relação ao novo papel assumido pela família quanto à responsabilidade
pelo idoso. “Há uma hipocrisia nas políticas de distribuição de renda que
têm enfoque familiar. Elas concentram as responsabilidades na família e, em
especial nas mulheres, que acabam assumindo essas obrigações”, afirmou. 

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Fonte: Agência FAPESP
Por Fábio de Castro



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