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Filho ideal x filho real
"Recorre até à fertilização assistida para dar à luz um filho que possa doar-lhe sangue, líquido de medula e órgãos. " Data da Notícia: 05/10/2009 Sara é casada com Brian e tem dois filhos: Kate e Jesse. Aos dois anos,
Kate é diagnosticada com leucemia e, a partir de então, sua mãe dedica a
vida a salvá-la. Recorre até à fertilização assistida para dar à luz um
filho que possa doar-lhe sangue, líquido de medula e órgãos.
É assim que nasce Anna, a caçula, que passa sua vida em hospitais ao lado
de Kate, pelo menos até os 11 anos. Na entrada da adolescência, decide ter
o controle sobre seu corpo e recorre a um advogado para obter o que chama
de emancipação médica em relação a seus pais. Passa, assim, a travar uma
batalha contra sua mãe. Essa é a trama central do filme "Prova de Amor", em
cartaz nos cinemas.
Esse filme pode ser visto de formas diferentes. Podemos ver, por exemplo,
em meio aos inúmeros dramas familiares, o acontecimento de uma tragédia que
transforma a vida de todos os envolvidos e do grupo. Mas também é possível
vê-lo como uma narrativa que conta parte da história de todos nós.
Quando uma mulher engravida, gera dentro de si um filho que, no entanto, já
é gerado há muito mais tempo em sua imaginação. Assim que o filho real
nasce, mãe e pai passam a travar uma dura batalha entre seus dois filhos: o
real e o ideal.
Tal batalha é cotidiana porque é preciso renunciar ao filho ideal para que
possam exercer o papel de mãe e de pai do filho que nasceu. Nem sempre é
possível perceber o quanto a imagem acalentada do filho ideal impede que os
pais enxerguem o filho real com suas características e dificuldades, seus
limites e suas potencialidades, suas demandas e necessidades, mas isso
acontece muito.
Sara não consegue ouvir Kate porque está totalmente empenhada em fazer com
que a filha que tem sobreviva à doença, mas Kate não é essa filha. Sara não
consegue conviver com o problema que Jesse apresenta na escola, por isso o
envia por um ano para uma escola especializada para que lá encontrem uma
solução. Sara não percebe que exige demais de Anna. Sara nem sequer percebe
a relação intensamente fraterna que há entre os três irmãos, tão mergulhada
que está em si mesma.
Brian, por sua vez, é capaz de, muitas vezes, ver e ouvir cada um de seus
filhos. Ele poderia intervir para colocar sua mulher em seu lugar para
ceder espaço às vidas das crianças, mas escolhe se omitir perante a força
de luta da mulher para evitar conflitos, para tentar manter sua família
"equilibrada". Mas tudo o que consegue é se ausentar de seu papel de pai.
Há muito de Sara, por exemplo, nas mães que não aceitam que seus filhos
tirem nota baixa na escola e que, para evitar isso, recorrem a toda sorte
de estratégias -de contratar especialistas a estudar e fazer os deveres
diariamente com o filho. Há muito de Brian nos pais que justificam a forte
presença da mãe na vida dos filhos como impedimento para o exercício
responsável da paternidade.
Temos pressionado em demasia nossas crianças e nossos jovens e ouvido e
olhado pouco para eles. Precisamos inverter essa equação para que possamos
nos tornar pais e mães melhores do que temos sido. |
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