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Crescimento da economia aquece mercado
para engenheiro
"Procura pelo curso nos vestibulares aumenta e formandos deixam sala de aula com diversas opções de emprego " Data da Notícia: 30/07/2008 É a vingança do engenheiro que virou suco. O crescimento recente do País
fez explodir a procura por profissionais e valorizou novamente uma das
profissões mais antigas do mundo. Em tempos de Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), já faltam engenheiros para as obras de infra-estrutura,
mineração e na indústria do petróleo, sem contar o boom da construção civil
residencial. O otimismo do mercado começou neste ano a se refletir em
grandes vestibulares; aumentou a procura para os cursos nas universidades.
Mas estima-se que o Brasil precise formar 20 mil engenheiros a mais por
ano.
A engenharia perdeu suas vigas e desabou em meio à estagnação econômica
brasileira dos últimos 30 anos. Engenheiros tornaram-se economistas,
administradores e suco, como a emblemática história do profissional
desempregado que abriu uma lanchonete na Avenida Paulista na década de 80
com o nome O Engenheiro que virou suco (mais informações na página A25).
Hoje, engenheiros contemporâneos do antigo proprietário da lanchonete, como
Luiz Fernando Penalva, de 59 anos, são chamados a voltar para o mercado de
trabalho. “Nunca pensei que iria para a frente da obra de novo, algo que só
fiz com cinco, dez anos de formado”, conta. Penalva concluiu o curso de
engenharia civil em 1974 no Instituto Mauá de Tecnologia e na difícil
década de 1980 teve de se mudar para o Nordeste para conseguir trabalho.
Mais tarde, ingressou em um cargo de administrador de um condomínio de
casas, em que ficou por 12 anos. Cansado, juntou dinheiro e parou de
trabalhar no ano passado. O engenheiro foi resgatado do que ele chamava de
“spa mental” há dois meses por uma construtora em busca de profissionais
experientes. Agora, trabalha até 10 horas por dia em obras públicas.
“Chegou a nossa vez”, anima-se o vice-diretor da Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo (Poli-USP), José Roberto Cardoso. Na instituição,
alunos do último ano precisam se decidir entre quatro ou cinco propostas de
emprego. Os salários iniciais ficam próximos dos R$ 5 mil. No vestibular de
2008, 10.160 estudantes disputaram as 750 vagas da Poli, um aumento de 37%
com relação ao ano anterior.
O resultado se repetiu no Centro Universitário da FEI, com 31% mais
candidatos no exame de julho. Na Universidade de Brasília (UnB) e na
Universidade Estadual Paulista (Unesp), o crescimento na procura por
engenharia civil foi de 80% e 50%, respectivamente. “Vi que o mercado
estava ótimo e resolvi, enfim, prestar engenharia”, conta Adilson Cardoso
de Santos Júnior, de 20 anos, que acabou de ser aprovado no vestibular da
FEI. Ele já trabalha no setor automobilístico e percebeu que esta era a
hora para se tornar engenheiro.
“Quase todos os alunos já estão em estágios ou efetivados”, diz a
pró-reitora da FEI, Rivana Marino. Ela conta que tem aumentado também a
busca por especialização nas áreas técnicas, como metalurgia e
automobilística. O mesmo ocorre na Mauá, que recebe cada vez mais
engenheiros em busca de pós-graduação.
Paulo Eduardo Converso, de 27 anos, nem se formou e já foi contratado como
engenheiro assistente da Brascan Engenharia, empresa que constrói
atualmente 1 milhão de metros quadrados em São Paulo e no Rio. Ele trabalha
na obra de um prédio de alto padrão em Alphaville, de 27 andares. “Sinto
que estou no lugar certo, na hora certa”, diz.
Outros 286 mil estudam engenharia no País, segundo números mais recentes do
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do Ministério da
Educação (Inep/MEC). Só cerca de 30 mil, no entanto, concluíram os estudos
em 2006, último ano registrado pelo Censo da Educação Superior. Apesar do
aumento de quase 40% se comparado à 2003, há consenso nas entidades de
classe de que o Brasil precisaria formar hoje 50 mil engenheiros por ano.
Na Coréia do Sul, exemplo de país que tem crescido em inovação tecnológica,
80 mil concluem os cursos de engenharia todo ano. A população local é de 49
milhões de habitantes, um quarto da brasileira. Na China, são 400 mil
engenheiros formados por ano; na Índia, 250 mil. Mesmo assim, faltam
profissionais no mundo todo, garantem especialistas.
ECONOMIA ESTÁVEL
“Engenharia e desenvolvimento caminham juntos. É o engenheiro que gerencia
o progresso”, resume o presidente do Instituto de Engenharia, Edemar de
Souza. No início de 2007, o governo entendeu que a economia nacional já
tinha indicadores macroeconômicos e sociais positivos que possibilitavam
uma aceleração do crescimento. A economia estava estabilizada, havia um
ambiente favorável para investimentos e uma reduzida dependência de
financiamentos externos.
Foi lançado então o PAC, com investimentos em infra-estrutura de R$ 503,9
bilhões até 2010, principalmente em áreas como energia, transportes,
saneamento, habitação e recursos hídricos. “Para cada US$ 1 milhão que se
investe, cria-se um posto de engenheiro”, diz o vice-diretor da Poli-USP.
Ao mesmo tempo, a maior oferta de crédito pelos bancos oficiais e privados
levou ao boom da construção civil, alavancado também pela recente abertura
de capital das grandes construtoras. Só nos primeiros cinco meses do ano,
foram 185,3 mil novas vagas no setor no Brasil, de acordo com o Sindicato
da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCom-SP).
Hoje são 2 milhões de trabalhadores na construção civil brasileira, um
recorde. Segundo o vice-presidente da entidade, Haruo Ishikawa, não faltam
só engenheiros. Há necessidade de mais mestres-de-obras e todo tipo de
técnico. “Engenheiro experiente virou diamante.”
Para o presidente da Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e
Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Melo, o País não teve visão estratégica
para preparar mão de obra para o desenvolvimento econômico. Existem 495.
581 engenheiros registrados no Brasil hoje, mas nem todos trabalham na
área. E já cresce o número de profissionais estrangeiros; são 6 mil
atualmente. “Temos 6 engenheiros para cada mil pessoas economicamente
ativas. Na Europa e Ásia, o número varia de 18 a 28.”
Ensino ruim é uma das causas da falta de profissionais
Uma das razões para a falta de engenheiros que o País enfrenta hoje é a
deficiência no ensino de matemática, química, física e biologia nas
escolas. “Pela falta de metodologia adequada e bom professor, essas
disciplinas se transformam em um bicho-de-sete-cabeças para os alunos”, diz
o vice-diretor da Poli-USP, José Roberto Cardoso.
Segundo estudos do Ministério da Educação (MEC), 90% dos professores que
hoje ensinam física e química no ensino médio não cursaram licenciatura
nessas áreas. Eles se formaram para serem docentes em outras disciplinas,
mas, pela falta de profissional adequado, assumiram também essas classes.
Como conseqüência, o Brasil é um dos piores colocados no mundo em exames
internacionais que medem matemática e ciência. No último Programa de
Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa), considerado o mais importante
do mundo em educação realizado pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), estudantes brasileiros não conseguiram
nem sequer resolver problemas simples de cálculo. Em ciência, o País ficou
em 52º lugar entre as 57 nações que participaram da prova.
“O jovem olhava para o mercado de trabalho que não estava bom e ainda
percebia sua própria dificuldade em matemática, por exemplo. Claro que ele
não iria querer ser engenheiro”, diz o o presidente do Conselho Federal de
Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Melo. Nos
anos 90, os cursos que batiam recordes de concorrência nos vestibulares
eram sempre da área de humanas, como Jornalismo e Publicidade.
Hoje há ainda 80 mil vagas a mais em engenharia em relação ao número dos
que ingressam a cada ano nos cursos, segundo dados do MEC. Fora o fato de
as universidades, principalmente privadas, registrarem oficialmente números
exagerados de vagas, a ociosidade é motivada principalmente pela evasão e
pela falta de interesse dos estudantes.
“Além dos poucos formados, os que saíam das faculdades nos anos 80 e 90 iam
trabalhar em banco”, lembra Frederico Bonnard, diretor de incorporação da
Brascan São Paulo Residencial, empresa da construção civil que hoje sofre
com a falta de profissionais. Muitos dos engenheiros que enveredaram para
áreas de gestão e finanças nas décadas passadas hoje são diretores de
multinacionais, presidentes de bancos. Mas estão desatualizados em relação
à sua área de formação e poderiam ter dificuldade para voltar a trabalhar
na produção, caso fossem requisitados. “Até o presidente do Banco Central,
hoje, é engenheiro”, lembra o presidente do Instituto de Engenharia, Edemar
de Souza.
Para ele, o momento atual é o melhor dos últimos 40 anos para a profissão.
“O crescimento do Brasil é sólido e duradouro, em todas as áreas:
agricultura, siderurgia, automóvel, mineração, civil, petróleo. Aconselho
os jovens a serem engenheiros.” R.C.
Vale forma futuros funcionários
A brasileira Vale estima que vai precisar de pelo menos mil engenheiros nos
próximos cinco anos para sustentar sua expansão em operações de mineração,
construção de ferrovias e portos. Para suprir a demanda, a empresa resolveu
começar a formar seus futuros funcionários.
Em parcerias com universidades públicas e privadas, a Vale montou neste ano
cursos de especialização para formar engenheiros de mineração, ferroviários
e portuários - os dois últimos nem sequer existem no nível de graduação no
País.
O primeiro processo seletivo para as 330 vagas teve 16 mil inscritos,
atraindo engenheiros de todas as áreas. Os alunos cursam os módulos
didáticos por três meses, recebem bolsa de R$ 3 mil e quase todos são
contratados pela empresa ao fim da especialização. “Não temos como
conseguir esses profissionais se nós mesmos não formarmos”, diz a
coordenadora de educação profissional da Vale, Tatiana Matos.
O engenheiro que virou suco... e deu certo
Desempregado durante a recessão, Garcez Filho virou dono de lanchonete e
símbolo de um período difícil
Renata Cafardo
O engenheiro que virou suco morreu antes de o País se render de novo à
engenharia. A lanchonete durou cinco anos, mas foi o bastante para expor a
triste situação de milhares de profissionais em um Brasil mergulhado na
recessão. Odil Garcez Filho deixou a mulher, também engenheira, dois filhos
e uma história que engenheiro nenhum esquece.
“Lembro como se fosse hoje, eu estava no escritório, ouvindo ele me dizer
ao telefone que tinha sido convidado a se retirar da empresa”, conta Neide
Correa Garcez. O marido estava decepcionado com a profissão, e ao ligar
para a mulher para contar da demissão, já tinha a solução. Iria abrir uma
lanchonete.
Era 1982. O filme nacional O homem que virou suco, de João Batista de
Andrade, acumulava prêmios em festivais de Gramado, Brasília, Moscou.
“Coloca o nome O Engenheiro que virou suco”, decidiu a mulher. E desligaram
o telefone.
O filme contava a história de um poeta nordestino que vinha para São Paulo
e era confundido com um assassino. Falava da resistência à sociedade
opressora, que faz perder as raízes.
Garcez Filho fazia questão de deixar o diploma na parede e a caderneta do
Conselho Regional de Engenheira, Arquitetura e Agronomia (Crea) colada no
vidro do caixa da lanchonete. “Sempre vinha gente perguntar se era verdade
que ele era engenheiro. Saiu em revistas, jornais, TV.” A loja na Avenida
Paulista, quase na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio, começou vendendo
lanches e sucos e, por insistência da clientela, passou a ter os chamados
pratos feitos. No primeiro dia, Neide faltou ao trabalho no Itaú e cozinhou
60 refeições.
Mas a mulher nunca deixou o emprego para se dedicar à lanchonete. O
Engenheiro que virou suco era do profissional formado pelo Mackenzie, em
metalurgia. “Ele era um homem à frente do seu tempo. Naquela época, a
lanchonete já era toda informatizada.” Em 1987, no entanto, o proprietário
do espaço quis renovar o contrato, “cobrando os tubos”, lembra Neide. Sem
condições de pagar o pedido, venderam a lanchonete, que logo depois foi
fechada.
Garcez Filho e Neide tiveram ainda uma loja de roupas, que foi assaltada e,
depois, fechada. Tentaram voltar ao mercado e acabaram os dois demitidos.
Em 1990, o engenheiro soube que estava com leucemia. Lutou contra a doença
por dez anos e morreu em 6 de julho de 2001, aos 51 anos.
“Ele aplaudiria hoje essa nova energia da engenharia”, diz a viúva. Aos 57
anos, ela trabalha em uma empresa de locações de geradores. Muda-se hoje
para o Peru, onde será responsável por instalar a filial da companhia. É
agora a única engenheira da família - os filhos, Gustavo, de 31 anos, e
Luiza, de 24, formaram-se em ciência da computação e hotelaria.
Neide tem orgulho de contar a história do Engenheiro que virou suco. “Foi
lucrativo, pudemos viajar para fora do País.” E se entristece apenas com o
sonho que ficou no passado. Quando a lanchonete teve de ser fechada, o
casal já guardava dinheiro para abrir uma filial que teria o nome: O
Engenheiro que virou suco...e deu certo. |
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