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A nova corrida do ouro
"A nova corrida do ouro"

Data da Notícia: 29/06/2004


Numa sociedade em que a palavra qualificação é tida como sinônimo de
ascensão, profissionais e estudantes de qualquer idade sentem-se cada vez
mais pressionados a aprender. Mas, ao voltar aos bancos escolares,
descobrem que a corrida pelo conhecimento não é de curta distância, mas uma
maratona sem linha de chegada.

Alguns indicadores ajudam a entender a dimensão dessa prova. De acordo com
a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do
Ministério da Educação), o número de matrículas em cursos de doutorado
saltou de quase 10 mil, em 1989, para 40 mil, em 2003. Já as matrículas de
mestrado subiram de 32 mil para 72 mil no mesmo período.

Não há dados nacionais sobre matrículas em MBAs, uma das pós-graduações
mais procuradas pelos executivos. Mas, por exemplo, a procura pela
pós-graduação do IBTA, em São Paulo, cresceu 291% nos últimos dois anos.
Verifica-se o crescimento também no nível de graduação, que recebeu 1,3
milhão de novos alunos entre 1998 e 2002, segundo o Inep (Instituto
Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, ligado ao MEC).

Nessa corrida, o comerciário Antônio Pacheco Filho percebeu que estava
perdendo terreno e decidiu investir na própria formação. Aos 45 anos,
Pacheco mora em Sorocaba, mas trabalha a cerca de 100 km de distância, em
Campinas, ambas cidades do interior de São Paulo.

Para graduar-se em gestão de finanças em sua cidade, no ano passado,
aproveitava o trajeto de carro e estudava na estrada, ouvindo as mais de
400 fitas cassete das aulas que gravou ao longo do curso.

No ano passado, iniciou um MBA, também em Sorocaba. O "investimento" de
Pacheco chega a R$ 24 mil. "Eu estava preocupado por ter chegado aos 40
anos e percebi que precisava melhorar minha formação, por isso investi
nesses cursos", explica.

No entanto, Pacheco ainda não vê a linha de chegada. No ano que vem,
pretende fazer um mestrado para traçar um novo caminho: quer iniciar uma
vida acadêmica e dar aulas. Compensa? Ele acredita que sim. "Nesses 30
meses seguidos de aula, não perdi nada, só ganhei", avalia.

Assim como Pacheco, não há profissional que não se sinta pressionado a
aprender sempre mais, mesmo aqueles que trabalham em instituições que, por
séculos, pareciam estar protegidas dos efeitos da aceleração do tempo, como
as bibliotecas.

É o caso da bibliotecária Juliana Ortega, 26. Entre os investimentos em
educação que vem fazendo desde 2001, como um MBA e especializações, Juliana
participou neste ano de quatro cursos, dois deles simultaneamente: o de
documentação e informação jurídica e o de gerenciamento eletrônico de
documentos. "Com essa atualização constante, ganhei mais consideração da
empresa. A minha diretora quer que eu, de algum modo, divulgue aos demais
funcionários aquilo que aprendi", conta.

Para Maria Tereza Fleury, diretora da Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP, o mundo contemporâneo não oferece alternativa. "O
conhecimento é, hoje, o fator que mais agrega valor às pessoas, aos
produtos e aos serviços", diz.

"Essa produção imensurável de informações faz com que todos estejamos
sujeitos a algum nível de obsolescência", afirma o engenheiro Luiz Barco,
65, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Há estudos que
dizem que a quantidade de informações a que um cidadão do século 19 era
exposto em 80 anos de vida equivaleria ao conteúdo da edição dominical do
jornal norte-americano "The New York Times". 

De acordo com Barco, para entender o cenário atual, basta comparar o mundo
das tecnologias com a construção de uma casa. "O tempo passou, e as
técnicas construtivas são, na essência, semelhantes", diz. "Mas, no campo
tecnológico, as mudanças são assustadoramente velozes e nos obrigam a
estudar continuamente", compara.

É preciso aprender —e disso ninguém mais duvida. Mas não há consenso sobre
o fato de o caminho da promoção profissional passar necessariamente pelo
diploma. Segundo o consultor organizacional José Ernesto Bologna, antes de
entrar em uma corrida desenfreada por conhecimento, é preciso ter
consciência de que não há garantia de louros ao final.

"É uma grande ilusão achar que comprar educação é automaticamente comprar
progresso", diz Bologna. Segundo ele, não há estudos que comprovem que o
sucesso na vida profissional seja decorrente da quantidade de títulos.

E não basta olhar para a quantidade. Mesmo a qualidade tem sua ponderação:
o conteúdo ou o formato de um programa não vale por si só, mas deve
realmente trazer algum ganho de conhecimento para o aluno —o tal "valor
agregado". A consultora Ana Maria Cadavez, gerente sênior da KPMG
Consultoria, não vê, por exemplo, muita utilidade nos concorridos MBAs para
profissionais já maduros, a não ser que estejam à procura de novos contatos
e relacionamentos. Da mesma forma, enquanto os mestrados são considerados
importantes como qualificação para o mercado de trabalho, os doutorados são
mais indicados para quem quer permanecer na pesquisa.

Mas o empenho dos indivíduos em buscar formação é visto com bons olhos por
alguns consultores, pois pode indicar visão de longo prazo no planejamento
da própria trajetória profissional. "Quando avalio o currículo de um
executivo, procuro verificar o alcance de sua visão, e a preocupação com
educação continuada revela isso", conta Robert Wong, diretor da Korn/Ferry
Internacional, multinacional especializada na recolocação de executivos.

Em suas palestras, Wong costuma comparar os funcionários de uma empresa aos
de um restaurante. "Sempre há garçons que querem apenas uma gorjeta maior,
outros que pretendem ser gerentes e ainda aqueles que sonham com o negócio
próprio." Para o consultor, o histórico da formação do profissional mostra
que caminho ele tomou em sua vida.

Maria Tereza Fleury acredita que, antes de se decidir entre as várias
formas de aprimoramento da atividade profissional, o mais importante é se
perguntar para onde quer dirigir a própria carreira e avaliar quais são as
suas deficiências —ou seus "gaps", na linguagem das empresas.

Foi assim com o professor universitário e coordenador pedagógico de cursos
a distância Ricardo Carvalho Rodrigues, 38, que já fez cerca de 40 cursos
livres, os quais, segundo ele, "significaram um aprofundamento em questões
que eram importantes em determinado momento". Ou seja, ele procurou
preencher os seus "gaps". "O importante é buscar, na hora certa, o curso
certo, que atenda às suas necessidades específicas. Nunca fiz um curso
aleatoriamente, apenas por fazer", afirma Rodrigues. Ele fez mestrado em
educação e agora cursa doutorado na mesma área. 

Mas atenção: ao fazer planos, não se deve pensar apenas nos conteúdos a
serem aprendidos. "O mercado vai olhar para a sua competência, ou seja, o
saber fazer, e não para o seu estoque de informação", explica a professora.
"Hoje pouco adianta ser um expert em áreas técnicas, como logística, se o
executivo não souber motivar, desenvolver e reter os profissionais de sua
equipe", acrescenta Wong.

São talentos pouco palpáveis, mas decisivos, que estão em alta e podem
fazer a diferença. "A especialização chegará a tal ponto que, futuramente,
os salários serão pagos de acordo com as competências das pessoas, e não
mais conforme a sua formação profissional", prevê a consultora Elisabeth
Vargas, diretora da IDS Scheer, multinacional alemã na área de gestão do
conhecimento.

"Por isso é preciso estar atento às habilidades de que a empresa necessita
e, sobretudo, gostar muito do que faz e ter a carreira como um projeto de
realização pessoal", diz Elisabeth. "O que traz prazer para as pessoas
poderá trazer competitividade para a empresa", conclui.

O prazer é um dos combustíveis que permitem o estudo contínuo. O bancário
Alexandre Garrido, 31, sabe bem disso. Ele nunca deixou de estudar por
períodos superiores a seis meses e calcula ter gastado R$ 100 mil em
educação. Depois de fazer dois MBAs, entremeados por cursos de línguas e
outras especializações, pretende engatar um mestrado no ano que vem, ao
qual quer dedicar pelo menos 30 horas semanais de estudo.

"Não vejo a busca pela educação continuada como um fardo. Sei da
importância disso e faço porque gosto", diz. "Desde a época em que fiz meu
primeiro MBA, meu salário mais que triplicou. Se eu tivesse me mantido no
mesmo cargo, meu salário estaria apenas 10% maior", calcula. Para Garrido,
os cursos não foram os únicos responsáveis pelas promoções, mas, "que
ajudaram, ajudaram".

A mesma sorte não teve ainda a arquiteta Ana Regina Cuperschmid, 28, que
atualmente trabalha com projetos para a internet. Ela fez especialização no
Canadá e um MBA, mas não viu o retorno desse investimento. Com os cursos
que fez, quer recolocar-se na carreira, ampliando suas possibilidades
profissionais. "Não consegui ganhar para pagar o que gastei, mas sei que
essa espera também faz parte do processo."

Nada garante que o retorno voltará, mas Ana Regina caminhou na direção
correta. "Investir em formação vale a pena quando se tem claro aonde se
quer chegar", afirma Maria Tereza Fleury. Para Yara Rezende, professora de
pós-graduação em gestão do conhecimento do Senac-SP, o principal é ter
certeza de que a informação adquirida será transformada em conhecimento —
não apenas para o uso imediato mas para a vida. "De nada adianta ler todos
os livros sobre um assunto se não formos capazes de processar a informação
e criar algo novo com base no que lemos", diz.

"O conhecimento profissional deve ajudar a desenvolver a sabedoria de
viver. Profissão e vida são inseparáveis", diz Fernando Becker, professor
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Então relaxe, respire fundo e pense bem qual é o caminho que vai tomar.
Sobretudo porque a época em que vivemos oferece muita informação, mas em
troca cobra sabedoria, o que é algo bem diferente.		

Fonte: Folha de S.Paulo



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