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Universidade dos que não estudam
"É uma pena, porque sem fiscalização, nem o Estado e nem a família conseguem saber se gastaram bem ou mal o seu dinheiro."

Data da Notícia: 08/02/2007


A cena já é banal. Em fevereiro, nas esquinas perto das faculdades, jovens
bem-nascidos, pintados como índios de antigamente, brincam de mendigos.
Pedem uma moeda, jurando que são "bichos", a gíria para quem acaba de
entrar na universidade. É humilhação consentida, sem efeitos colaterais. Um
motorista atendeu a uma destas jovens, bem vestida e toda suja de tinta,
com uma pergunta: "Você entrou em que faculdade", seguido da resposta:
"Veterinária na...", notória instituição de terceira linha. Insistente o
motorista retrucou: "Você precisava ter estudado mais". Recebeu resposta
imediata: "Meu pai também disse isso, mas eu não gosto de estudar".

 Esse é um ponto importante. A jovem, com dentes perfeitos, tão bem
tratados quanto seus cabelos, acumulou ao longo de pelo menos treze anos
custo fixo de cerca de mil dólares/mês no orçamento familiar. Uma mínima
parte disto pode ser descontado no IR anual (menos de 5% do custo real),
que é a contribuição do Estado para a educação das camadas médias. Como
esse é o preço, poucos chegam no alto da pirâmide escolar. O Censo da
Educação Superior do ano passado registrou cerca de quatro milhões de
estudantes, menos de 8% da população na faixa etária entre 18 e 24 anos. É
muito pouco: 80% menos que o Chile ou Argentina, oito vezes menos que a
Coréia do Sul.

 Já a jovem caloura, foi bastante honesta para confessar o que não quer:
estudar. É fato que a competitividade da economia brasileira exige muito
mais gente bem formada do que temos. Se do ponto de vista quantitativo
faltam estudantes, do qualitativo, a realidade está na resposta da moça, a
falsa mendiga. E os macro resultados educacionais do País indicam que ela
não é caso isolado. Por exemplo, já se sabe que os resultados finais do
Sistema de Avaliação da Educação Básica 2005 (Saeb), que devem ser
divulgados hoje, revelam que a média de acertos dos alunos do último ano do
ensino médio foi quatro pontos menor que a de 2004. O Saeb abrange a rede
pública e a privada.
 
 Maus resultados não estão restritos aos cursos menos procurados. Vale
notar, por exemplo, o que ocorre com o s alunos de Medicina, uma das notas
de corte mais alta nos vestibulares. A prova aplicada a 1.003 formandos,
pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, mostrou que 38%
dos jovens médicos foram reprovados por não responder a 72 das 120 questões
do exame, resultado 18% pior que o de 2005. 

 Algo de errado acontece, portanto, com os investimentos em educação, seja
o do Estado, seja o das famílias. A relação custo-benefício destes aportes
está longe do mínimo desejável. A cobrança de resultados reais no processo
educacional está muito fragilizada. Ao que parece, basta se declarar
estudante, para que todos os pecados, inclusive o da preguiça, sejam
perdoados. Apesar desse fato, verificar os resultados reais da passagem
pelo sistema educacional, com provas, não aparece em nenhum dos projetos de
reforma universitária em gestação. É uma pena, porque sem essa
fiscalização, nem o Estado, nem o pai da falsa mendiga conseguem saber se
gastaram bem ou mal o seu dinheiro.

Gazeta Mercantil - Leonardo Trevisan - Editorialista da Gazeta Mercantil
E-mail: ltrevisan@gazetamercantil.com.br		

Fonte: Gazeta Mercantil



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